Entendendo A Elegância do Ouriço e sua crítica ao sistema

A elegância do ouriço 
Muriel Barbery
352 páginas
Companhia das Letras
Ano de publicação: 2008 
Sobre o que é: Renée é uma senhorinha que trabalha como concierge num edifício de gente riquíssima em Paris. Só que além de ela ser a zeladora, também adora ler sobre Filosofia, literatura russa e ver filmes clássicos do cinema japonês. Porém, ninguém sabe disso porque ela finge ser o estereótipo da zeladora pobre e velha que é mega ignorante e adora ver programas de auditório na tevê. Mas tudo muda quando ela começa a fazer amizade com um senhorzinho japonês que aparece no prédio e também com uma menina de 12 anos que decide que é inteligente demais pra viver e planeja se matar. 

Por que ele é bom? Quando dona Muriel resolveu escrever esse livro, tenho pra mim que ela quis dar uma de Jostein Gaarder da França e colocar questões filosóficas de forma didática. Mas é claro que não ficou a mesmíssima coisa, pois Jostein escreve pra um público infanto-juvenil, enquanto Muriel tem um público bem adulto.

Só que o mais legal do livro é a forma bem humorada com que ele é conduzido. Temos Renée, uma mulher superinteligente, porém pobre, que se finge de burra pra não ter de ouvir humilhações das pessoas ricas pra quem trabalha. Tem uma menina de 12 anos que decide se matar no dia do seu aniversário de 13 simplesmente porque se acha profundidíssima e pensa que já assimilou tudo o que era pra assimilar da vida. Achei muita graça dessa menina porque aos 12/13 anos eu também achava que sabia de tudo e nunca havia existido um ser humano mais profundo e triste com sua realidade não valorizada do que eu. LEDO ENGANO. A menina é tipo uma emo de mal com a vida, exceto pelo fato de que ela acha emos - e quaisquer outras pessoas - ridículos, mas enfim. E também há um senhorzinho japonês muito amorzinho que é o elo de união entre Renée e Paloma (a menina). ELE É MUITO AMORZINHO! E por conta dele ocorrem as cenas mais divertidas de todo o livro.

É esse senhorzinho japonês que torna tudo muito leve e bacana. Também dá pra fazer várias reflexões sobre capitalismo, cultura oriental, a crueldade das pessoas ricas e a frivolidade de quem não tem de ganhar seu pão a cada dia porque já possui uma vida garantida. Simplesmente excelente e inteligentíssimo - mas sem aquele tom pedante que faz com que nós, meros mortais que não estudam Filosofia, nos sintamos estúpidos.

Por que ele é ruim? Porque tristíssimo. Mas pensem numa coisa triste MESMO. Esse livro me fez chorar por meia hora num ônibus lotado porque simplesmente tem uma coisa x que acontece que não poderia acontecer naquele momento. A dona Muriel é uma senhorinha bem cruel, devo dizer.

~imagens reais de como fiquei ao terminar o livro~

Mas outro ponto que me incomodou foi que Renée, a protagonista, é extremamente conformada com sua situação. A mulher é autodidata, bambambam, sabe de vários conceitos filosóficos, e mesmo assim se resigna à sua condição de mulher pobre e chega a desfazer de idealistas como Marx, que escreveram obras justamente defendendo a condição do proletário de assumir seu lugar na sociedade, tudo porque ela não consegue ver a aplicação real daquilo e acaba ficando amargurada e solitária, vivendo num mundo cruel que trata mulheres pobres como o resto do resto.

Renée tem uma autoestima quase inexistente e se sente inferior a todos ao redor dela, mesmo sendo mais inteligente do que eles. Isso me quebrou o coração pois vivemos num sistema extremamente desigual, em que o valor de um indivíduo não é seu conhecimento ou sua capacidade (intelectual, emocional etc.), e sim suas posses, sua conta bancária.

Passei muita raiva lendo as passagens em que aparecem os ricos e seus filhos, jovens mimados de classe média alta ou classe alta, que não se contentavam em somente ter todos os privilégios que o dinheiro pode comprar, mas também precisavam tratar com arrogância e humilhar as pessoas pobres mais e mais a cada oportunidade. O mais revoltante disso tudo é que não é nada apenas ficcional, que não possa ser aplicado à vida real: cada vez mais se pode perceber a forma com que o capitalismo infla o ego daqueles que possuem condições financeiras - mesmo que o intelecto deixe por desejar - e quebra a autoestima de quem vive à margem, dependendo de um salário ridículo e da boa vontade de outras pessoas para viver de forma relativamente digna.

É realmente absurdo isso - no entanto, essas questões não tornam o livro ruim, apenas fazem com que bata aquela tristeza durante a leitura. Mas a crítica da autora é muito válida e presente. 

Se eu recomendo a leitura? Sim, sempre! Esse é um daqueles livros perfeitos pra se ler em dias chuvosos, enquanto se olha a chuva cair e se pensa que MORTE AO CAPITALISMO E À DESIGUALDADE SOCIAL, cof, cof.

Em um quote:
A sra. Michel tem a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes. (p. 152)  

13 comentários

  1. Olá Mia; a resenha ficou ótima, e me deu vontade de ler o livro hoje mesmo! (risos). A premiça é interessante, e o livro parece bom. Nunca li nada dessa autora, e, para ser-lhe franco, confesso, não a conhecia.
    A obra é um tanto longa, pelo que o melhor é lê-la num fim de semana (principalmente se estiver frio e chovendo) ;)

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  2. já quero ler! me lembrou uma atmosfera meio amelie poulain, meio filmes de suspense dos anos 70 nuns prédios com escadas em caracol. preciso de leitura atual, para não parar no tempo.

    um amigo me indicou O DESASTRONAUTA, talvez você goste!

    e ah: um charme esse 1984 aqui do lado me olhando, preciso comentar sempre o orwellzão :D

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    1. Nunca havia ouvido falar desse livro, mas pesquisei e GENTE, parece bacanudo!

      Aaaaah, 1984 ♥ Tô amandinho!

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  3. OI Mia,
    Amei sua resenha! Achei ela super completa, com tudo que um possível leitor precisa saber antes de ler. Gostei em partes da história, mas não consegui sentir muita empolgação para ler. Vou pesquisar mais sobre ele e me decidir, mesmo assim foi uma ótima dica!
    Beijos
    Blog Relicário de Papel

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  4. Olá. Bem, esse livro me interessa há algum tempo, mas como ainda não o tenho ele acabou ficando pra depois na minha lista. Eu só não concordo com a interpretação de que o capitalismo é o causador de todos os males do mundo, até porque não é.

    Beijos.

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    1. Oi, Amanda!
      Então, não disse que o capitalismo é o causador de todos os males do mundo. Mas que ele é a causa de mais da metade dos problemas atuais, é sim. E não é questão de interpretação, mas sim de estudo.

      Quanto ao livro: guria, vale a pena!

      ;*

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  5. OI Mia,
    Achei a sua resenha muito completa, Adorei.
    Fiquei com vontade de ler esse livro.
    XOXOX

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  6. Oi! Que livro incrível!
    Deve fazer a gente refletir muito sobre os problemas sociais.
    Só estou preocupada com essa parte triste, porque não gosto de tristeza :( Ultimamente leio mais livros pra dar risada, mas no futuro pretendo faz a leitura dessa obra!
    Obrigada pela indicação!
    Li O Mundo de Sofia e gostei bastante na época. Certeza que também vou apreciar este que você resenhou ;)

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  7. Que livro maravilhoso! Inclusive já fui ver o valor dele por que preciso tê-lo aqui comigo pra ontem! Sua resenha ficou excelente! Parabéns! Beijos

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  8. Esse livro entrou na minha estante recentemente, por motivos de eu li uma resenha, em algum lugar, em que a leitora disse que também chorou e se emocionou com ele. Já me arrepiei e gritei (mentalmente, claro) QUEROOOO porque eu amo ficar na sofrência com livros, sério, tenho algum probleminha com isso. Já que não gosto de chorar na frente de ninguém e normalmente assisto a filmes com companhia, poder me acabar em lágrimas durante a madrugada com livrinhos lindos é uma opção mais confortável pra mim, haha.

    Que blog mais <3!

    (E também comentando de metida - eu sempre, quando o assunto é livros - sobre 1984: GEN-TE, QUE LIVROOOOO.)

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  9. Oi Mia!
    O nome do livro já é um convite né! Agora sua resenha está incrível, tu soube ressaltar bem os pontos positivos. Mas tenho que dizer que o fato de tu chorar na leitura não é negativo para mim. Amo livros que me fazem chorar. São sempre os melhores!
    Com certeza vou querer ler!
    Bjus

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  10. Oi Mia, sua linda, tudo bem?
    Confesso que a trama desse livro não chamou minha atenção, não é o que estou acostumada a ler, talvez tenha sido a tristeza do da história. Mas a crítica foi importante, portante sei que para os fãs do gênero deve ser uma boa leitura. Sua resenha ficou ótima!!
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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  11. Oiie Mia!

    Adoro seu jeito de resenhar! É sempre bem diferente :)

    Nunca li nenhum livro com uma pegada filosófica por trás e fiquei tentada a ler. Sempre gosto de sair da minha zona de conforto. Vou adicionar, com certeza

    Beijos!

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