menu
16 agosto 2017

A vida é impraticável sem contos de fadas

Ontem dormi assistindo Encantada pela vigésima não sei quanta vez porque a vida é impraticável sem contos de fadas. A gente sabe que os contos de fadas tradicionais são histórias que inferiorizam a mulher à condição daquela que sempre tem de ser resgatada, que precisa de auxílio, que não consegue se virar sozinha. Mas mesmo assim tem dias em que apenas um conto de fadas, com seus vestidos esvoaçantes, a princesa bonita, mas completamente ingênua e a trilha sonora encantadora podem restaurar a nossa fé na humanidade. 


Minha bisavó veio pra cá durante a Revolução Russa. Ela nasceu lá, mas seus pais, durante a bagunça revolucionária, viram que não tinham condições de criar uma família naquela confusão e se mandaram pra o Brasil. Durante a viagem ela caiu no mar, mas conseguiu ser resgatada e viveu até ser bem velhinha e enterrada com os sapatos maiores que os pés. 

Gosto de pensar que esse foi um conto de fada da vida real: ela foi magicamente resgatada do mar por uma fada madrinha e sobreviveu pra casar com um filho de imigrantes poloneses e ter uma filha que teve outra filha e assim por diante, até mim. 

Quando eu era criança todo mundo dizia que eu era uma princesinha e eu cresci acreditando nisso. Acreditei piamente nas histórias de princesas que me contavam até os 10 anos de idade, quando descobri que eu não era princesa coisa alguma e deixei meus vestidos de renda, seda e laços de fita de lado porque a vida moderna necessita de jeans e tênis surrado. 

Hoje sinto falta dos meus vestidos e uso qualquer desculpa pra vestir algo bonitinho e cheio de lacinhos e rendas. 

Mas ainda acredito que todas nós somos princesas. Só que a nossa grande conquista não está mais num casamento pomposo com um príncipe bonitão e um viveram felizes para sempre, e sim na realização pessoal, que pode ser um trabalho bacana, uma graduação que sempre se quis fazer, uma parceria com uma editora ou até mesmo um guarda-roupa cheio de roupas lindas que te deem a sensação de que tudo é possível. Isso é diferente pra cada pessoa, mas todo mundo pode ter seu conto de fada e acho que isso é possível justamente porque a vida é cheia dessas pequenas coisas mágicas e secretas, das quais quase ninguém sabe, mas que enchem nossos dias de beleza e magia - como a minha bisavó escapando de um afogamento no meio do mar enquanto vinha da Rússia pra cá, em plena Revolução. 

Eu também tenho meu conto de fadas, mas ele - apesar de ter uma história de amor no meio - não é nada romântico. Meu final feliz envolve a escrita de boas histórias e a tranquilidade pra viver disso, mas a vida não é uma narrativa linear e não faço ideia se meu desejo vai se realizar. Mas que quero fazer que nem a Giselle e ir parar noutro lugar pra viver histórias que não estavam no meu roteiro e poder contá-las, isso quero. 

4 comentários:

  1. Esse filme é muito fofo e também hilário exatamente por trazer de forma literal para a "realidade" tudo que é tão lindo nos contos de fadas, mas absurdo em fatos. Concordo que a magia dos contos de fadas não é essa transposição literal, mas a singularidade de *sonho* para cada um.
    E que história incrível a da sua bisavó. ♥

    ResponderExcluir
  2. " ir parar noutro lugar pra viver histórias que não estavam no meu roteiro e poder contá-las, isso quero." isso quero também. E se isso é conta de fadas, então quero contas de fadas pra mim. Achei muito fofo seu post, como vestidinhos de seda e fitas ♥

    ResponderExcluir
  3. Que texto lindo <3
    Também adoro contos de fadas, não importa o que as pessoas dizem. Contudo, confesso que, de uns anos pra cá, quase não os tenho assistido. Preciso voltar a fazer isso porque sempre me sinto bem depois. Não me lembro muito de 'Encantada', acho que vou começar por ele :)

    ResponderExcluir

Postagem mais recente Postagem mais antiga Página inicial