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19 outubro 2017

As perguntas (ou como não fazer um livro de terror)

As perguntas
Antônio Xerxenesky 
184 páginas
Companhia das Letras
Ano de publicação: 2017 

Sobre o que é: Alina é uma guria que está fazendo doutorado em História das Religiões com ênfase em tradições ocultistas, mas que trabalha editando vídeos em São Paulo pra ganhar a vida porque não está fácil ter um diploma em História no Brasil. Nessas de edita videozinho, fica entediada, edita mais um vídeo, ela recebe uma ligação de uma delegada pedindo consultoria num caso bem bizarro. Aparentemente tem havido surtos psicóticos na cidade causados por uma suposta seita satânica. Alina se joga nisso e tenta ajudar, mas coisas acontecem e ela recomeça a ver as sombras misteriosas que ela via quando era criança. 

Por que ele é bom? Se eu tivesse de realmente destacar um aspecto bom dele seria o fato de que a escrita do Xerxenesky é muito tranquila de ser lida. Ele tem uma escrita fluída que só vai - tanto que li o livro em um dia; obviamente que o livro ter menos de 200 páginas contribuiu muito com isso, mas mesmo assim: parabéns, Xerxenesky, você tem uma linguagem bacana.

Também fiquei bem satisfeita ao perceber que a Alina é uma personagem que convence como mulher. Muitos autores homens, ao escreverem personagens femininas, transformam suas personagens em representações de estereótipos machistas terríveis. Mas Xerxenesky não faz isso e por conta desse ponto ele merece os parabéns. 

Se tivesse de escolher outro aspecto bom eu estaria em maus lençóis porque... bem, ele é um livro muito insatisfatório. Ao menos no que se propõe: ser um livro de terror. Não assusta e o terror que existe é muito mal construído. Mas explicarei isso melhor.

Por que ele é ruim? Quando terminei de ler esse livro fiquei em completo choque porque virei a página e NÃO TINHA MAIS NADA. A história é incompleta. Mas não é só isso. Parece que toda a construção é incompleta. A minha impressão foi que o Xerxenesky não sabia muito bem o que fazer com o universo que criou, de ocultismo e rituais em plena São Paulo dos dias de hoje, e aí decidiu simplesmente não fazer nada e parar por ali.

Posso estar enganada? Posso. A história pode ser uma alegoria sobre o vazio interior dos millennials e como eles buscam sentido em coisas aleatórias e nas quais nem acreditam muito? Também pode. (Inclusive, seria muito legal se fosse.) Mas acho mais provável que o autor simplesmente não tenha sabido conduzir sua história.

Ao final do livro é dito que ele pesquisou religiões ocultas, seitas, satanismo, bruxaria e blablabla por 2 anos pra poder escrever essa história. Aí ele escreve uma personagem que é DOUTORANDA nesse assunto em específico e que não entende bulhufas dele. As coisas mencionadas a respeito disso são o básico do básico que se encontra na primeira página do Google. Eu, que nem sou adepta dessas coisas (e sou bem cética, na verdade), entendo mais disso do que a personagem que deveria ser referência no troço. Por isso mesmo fiquei bem chateada com o livro. Achei que fosse ser muito legal, é uma temática que me chama atenção demais. Mas foi FUÉN. Muito fuén.

Se você cria uma personagem que já fez um mestrado e está fazendo um doutorado sobre ocultismo, o mínimo que pode fazer é realmente dar uma aprofundadinha no assunto. Não precisa ser expert, não precisa se iniciar na Alta Magia e fazer rituais e blablabla. Mas também não precisa ser tão raso a ponto de uma estudante de Jornalismo (eu), que nem participa dessas coisas mas que lê bastante e adora fazer matérias sobre religiões estranhas, ter mais conhecimento de causa do que a personagem em questão.

~Suspiria, filme dos anos 70 e uma das inspirações do livro~

Menino Xerxenesky, você tem potencial, mas precisa escrever sobre coisas que você conhece ou vai acabar se perdendo.

Eu queria muito, muito, muito ter gostado desse livro. Mas não foi dessa vez. Se a ideia era fazer terror, a única coisa que fez foi irritação. Mas é claro que isso não quer dizer que não vá funcionar pra você. Cada pessoa tem um gosto e quem sou eu pra dizer do que as pessoas deveriam gostar? Só diria se o livro tivesse misoginia, machismo ou qualquer coisa relacionada a preconceitos (racismo, homofobia e por aí vai), mas, como não é o caso, se jogue e veja o que cê acha. Pode ser que você goste bastante de um enredo nada clichê.

Você vai gostar se... curte um terror psicológico, é facilmente impressionável ou quer ler uma história diferente que se passa nos dias atuais.

Em um quote:

As religiões foram construídas em torno da morte, elas foram criadas para aprendermos a lidar com isso sem nos desesperarmos, e tem gente que diz que os filmes de terror também têm esse caráter utilitário de nos familiarizar com a violência e a morte. Porém, Alina se perguntou, o que fazer quando não acreditamos em deus algum, em Paraíso algum, quando até os filmes de terror se tornaram banais, e a morte na ficção não nos ensina mais nada. 

~livro recebido em parceria com a editora~

13 comentários:

  1. Oi Mia, tudo bem?
    Gostei muito da parte em que tu falastes sobre a representação dela como mulher que jus ao nome, o que me desmotiva é ver que a história está definitivamente incompleta e odeio coisas que me deixam esperando respostas. Gostei muito da capa.
    Beijinhos

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  2. Primeiro, gostei muito da sua sinceridade na resenha.
    Então, eu ainda não conhecia o livro, mas fiquei muito curiosa. Acho que os pontos negativos que você mencionou são bem válidos, mas, ainda assim, eu fiquei bem intrigada para conhecer mais sobre a trama.

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  3. Olá, ainda não conhecia esse livro, pena que não superou suas expectativas. Eu nem crio muitas expectativas com livros de terror, pois raramente eles me dão medo.

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  4. Olá! Nossa, a premissa até que era legal, mas depois de ler suas observações, perdi a vontade. Como assim incompleta??? Deve ser irritante demais saber que a história teve um final tosco, beijos!

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  5. Se tem uma coisa que me irrita é chegar ao final de um livro e ficar com cara de ponto de interrogação... Detesto ficar com esta sensação de incompleto.
    Bjs, Rose

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  6. Ahhhhh.... estava curtindo o livro pela resenha, até me deparar com a palavra incompleto. Tive essa experiência com O Demonologista e odiei.
    Não preciso dizer que sua resenha está maravilhosa por tamanhã sinceridade, isso vale muito.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  7. Oi! Achei a premissa do livro bem diferente, mas não curto muito o gênero e ainda mais com você destacando que achou que o livro teve um final meio incompleto, detesto esse tipo de narrativa, que acaba e a gente fica feito boba esperando uma conclusão. Dessa vez passo a dica! Adorei o jeito como você organizou a resenha. Parabéns!

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  8. Oi, tudo bem?
    Estou lendo esse livro que recebi da editora. Confesso que estou curtindo pois, como você disse, a escrita do autor é fluída e gostosa de ser lida, mas fiquei deveras preocupada com a questão de o livro ser incompleto, isso me assustou e espero não me decepcionar.
    Beijos,
    http://www.umoceanodehistorias.com/

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  9. Histórias incompletas me deixam extremamente enlouquecida... E isso da doutoranda não conhecer o assunto foi um furo bem feio. A história já não chamou muito minha atenção, mas depois de saber dessas coisas que você expôs eu não leria.

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  10. Não curto muito ler terror então essa é uma dica que eu passo, na verdade, eu passaria até se gostasse porque... livro incompleto? não tenho paciência pra isso!

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  11. Olá. Já tinha ouvido falar do livro, mas não é um livro que eu tenho vontade de ler, para falar a verdade, saber que contém um terror muito mal feito e que tudo parece não ser concreto me desanima ainda mais.
    Mas eu amei sua resenha, parabéns pela sinceridade... Concordo com vc sobre o autor ter que escrever sobre o que conhece.

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  12. Olá
    poxa, que pena que nao curtiu tanto, eu recebi o livro mas estou tomando coragem para ler pois também, não é meu estilo mas curto coisas de suspense psicológico e nao sabia que era mais liado a isso, então tentarei ler sim, ótima resenha

    beijos
    http://www.prismaliterario.com.br/

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  13. Eu recebi o livro da Editora mas confesso que tô meio com o pé atras por não ser muito o que eu goste de ler.

    http://laoliphant.com.br/

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