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10 agosto 2018

Graça, fúria e as mulheres perigosas

~arte feita por Carolina Pontes~

Recentemente o escritor angolano José Eduardo Agualusa esteve aqui no Brasil para participar do Fronteiras do Pensamento, um evento de grande porte que reúne vários pensadores do mundo todo para discutir a atualidade sob diversos contextos. Enquanto estava por aqui, ele deu uma entrevista falando sobre cultura, leitura e sociedade e disse uma coisa que ficou na minha cabeça por ser muito real:

"O desenvolvimento está ligado à leitura. Não é por acaso que os países mais desenvolvidos são aqueles onde se lê mais. A luta contra o subdesenvolvimento passa pela criação de boas redes de bibliotecas públicas. [...] Tenho essa ideia de que, quando você lê um romance, você se coloca na pele do outro. É um exercício de empatia. Alguém que tenha desenvolvido esse músculo da empatia dificilmente toma posições de domínio em relação ao outro. Por isso acho difícil que um torturador ou um grande ditador tenha o hábito de ler romances." 

Estamos vivendo um momento complicado no país, isso é fato. A educação nunca esteve tão fora de moda, o que faz com que tudo seja extremista, selvagem e ignorante. Por mais que tenha ressalvas quanto a ideia de que mais bibliotecas são a solução pra o momento que estamos vivendo, tendo a concordar com o Agualusa quando ele afirma que a leitura faz com que nos coloquemos no lugar do outro e quem faz isso dificilmente vai querer o mal do próximo. Realmente acredito que o incentivo à leitura é um dos pontos-chave para um país melhor, para uma democracia bem assentada. No entanto, esse é um caminho difícil. 

Existem dois livros que li recentemente que tocam justamente nesse ponto. Um é (re)lançamento do ano passado e outro acabou de ser lançado: O conto da aia, da Margaret Atwood, e Graça e fúria. Ambos tratam de uma sociedade distópica em que as mulheres foram proibidas de ler, escrever ou fazer quaisquer atividades que vão além do estereótipo de feminilidade tão apregoado na nossa sociedade. 

Quando li que tinham feito um livro de fantasia Y.A. (Young Adult, ou seja, para jovens adultos) parecido com O conto da aia, achei que seria bem péssimo. Pode ter sido preconceito literário meu, mas realmente as minhas experiências com Y.A.s não foram das melhores, apesar de ter lido alguns que realmente são excelentes. Mas, no geral, foram quase todos meio sem graça. Porém, Graça e fúria não é assim. 

Graça e fúria
Tracy Banghart
304 páginas
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Ano de publicação: 2018
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Sobre o que é: Serina foi criada para ser uma graça, uma das esposas do herdeiro, o futuro Superior de Viridia. Ela é linda, feminina e submissa, sabe costurar, bordar, dançar e tocar - mas não sabe ler, pois isso é um crime para mulheres. Sua irmã, Nomi, a acompanhou até o Palazzo para ser sua aia e cuidar de todas as necessidades dela enquanto ela serve ao herdeiro e espera ser escolhida por ela para finalmente se tornar, de fato, uma graça. No entanto, Nomi está longe de ser submissa como Serina: ela é rebelde, não aceita o fato de não poder escolher seu destino e desafia a qualquer autoridade, inclusive a do herdeiro, o que acaba lhe custando muito - a ela e a sua irmã. 

Em Viridia, local onde se passa a história, não existe democracia. O governo lá é autocrático e ditatorial e seu governante é o Superior, um homem cuja família está há gerações no poder, não por mérito ou por voto popular, mas por força. Cada Superior foi pior do que o outro e estabeleceu regras terríveis para o povo, em especial para as mulheres, que eram vetadas em tudo e cuja única opção era trabalhar como escrava costurando ou casar com um homem que ela não poderia escolher. 

"As mulheres não podiam ler.
Não podiam escolher seus maridos, empregos, futuros.
Não podiam mergulhar em busca de pérolas ou vender produtos para ajudar a família.
Não podiam cortar o cabelo sem que um homem ordenasse.
Não podiam pensar por si mesmas.
Não podiam escolher.
Mas por quê?" 

Serina foi preparada desde criança para se tornar uma graça. Ela foi bem nutrida, enquanto todos ao seu redor passavam fome, para poder ter curvas que agradassem ao herdeiro; foi ensinada a dançar, a costurar, a bordar, a ser o mais elegante possível, a estar sempre limpa e cheirosa, ainda que vivesse na pobreza, tudo para que subisse na vida e, assim, não tivesse de passar por dificuldades como todo o resto da população, dessa forma também elevando o status de sua família. Sua irmã, Nomi, não era considerada uma beldade, portanto não recebeu nenhum tratamento especial e viveu a vida inteira à sombra de Serina. No entanto, Nomi possuía um espírito rebelde e contestador, o que a fez convencer seu irmão, às escondidas, pois era um crime grave, a ensiná-la a ler e a escrever.

Quando o aniversário do herdeiro se aproxima, candidatas a graças são escolhidas por toda Viridia e, é claro, Serina é uma delas. Ela e Nomi, sua aia, vão para o Palazzo para se apresentarem ao herdeiro, que fará a seleção de suas três primeiras graças. Seu pai, o Superior, logo lhe entregará o governo, e é tradição que o herdeiro tenha suas primeiras graças ao seu lado para que a garantia de uma linhagem seja certa.

No entanto, certa tarde Nomi acaba se perdendo no Palazzo e entra, sem querer, na biblioteca do Superior. Ela, que ama livros, não consegue resistir, entra e pega um deles. Claro que ela o esconde, mas, na tentativa de sair dali escondida, acaba dando de cara com o herdeiro e lhe dá uma resposta atravessada - o que era expressamente proibido. A princípio ele não a pune, mas isso desencadeia uma corrente de eventos catastróficos na história, incluindo o fato de que quem o herdeiro escolhe como graça é Nomi, não Serina - enquanto Serina é enviada para uma ilha-prisão, tudo porque foi encontrada segurando o livro que Nomi havia roubado.

Ao me deparar com essa história, primeiro pensei que era um exagero da autora, pois a realidade está bem distante disso. Então lembrei que na verdade essa minha visão é ocasionada pelo meu recorte de realidade de mulher branca, universitária e brasileira, que apesar de viver em uma sociedade machista, ainda tem liberdade o suficiente para poder pensar e até mesmo escrever esses pensamentos sem ser condenada à morte por isso. No entanto, é fato que ainda há muitos lugares no mundo em que as mulheres não têm direito algum e são forçadas a viverem eternamente subjugadas pelos homens - qualquer homem, não precisa ter algum cargo especial pra isso, basta ter nascido homem. Não é preciso ir muito longe: livros como O livreiro de Cabul já contam a história, recente, de mulheres que vivem para seus maridos, que são forçadas a serem submissas e são consideradas criminosas se tiverem a audácia de ler um livro. Então percebi que a autora foi muito inteligente ao inserir, de forma fantasiosa, uma realidade ainda vivenciada por tantas mulheres e, assim, fazer com que leitores pensem acerca dessas questões.

É sobre isso que o Agualusa falou quando disse que o desenvolvimento [de um país] está ligado à leitura. Não tem como ler um livro desses e deixar passar batido todas as questões sobre machismo, misoginia, direitos e a luta por uma sociedade igualitária e que respeite as mulheres. Assim como a Offred de O conto da aia, Nomi é obrigada a viver de forma civilizada e submissa, sem jamais contestar nada e tendo tarefas específicas diariamente. Como Offred, se ela tiver filhos com o herdeiro ela não será mãe deles, apenas mais uma das graças que dão filhos a seus Superiores.

Já Serina, presa em uma ilha onde mulheres são obrigadas a lutar até a morte umas contra as outras em troca de comida, precisa aprender a se livrar das amarras de subordinação e feminilidade que lhe foram impostas para poder sobreviver naquele lugar.

"Tudo naquele mundo, até as prisões, colocavam as mulheres umas contra as outras enquanto os homens só observavam." 

Eu li o livro tão rapidamente porque queria muito descobrir o que a autora faria para que as personagens lidassem com esses problemas terríveis, mas estava claro: a solução é usar a fúria sentida por toda a injustiça daquela sociedade e a união entre mulheres para começar uma revolução.

Em Viridia, as mulheres são sujeitadas às mais diversas humilhações e levadas a acreditar que não podem fazer nada além de servir porque elas são consideradas perigosas. Os homens de Viridia sabem que basta uma mulher bem-resolvida para derrubar um sistema inteiro. Essa é a grande mensagem desse livro: ao invés de as personagens se enfrentarem e disputarem pela atenção do herdeiro para viverem uma vida luxuosa e relativamente fácil, elas preferem se unir e não ser rivais umas das outras porque sabem que a sobrevivência, tanto dentro do Palazzo quanto da ilha-prisão, depende da união entre elas.

"Sempre pensara que não havia valor em resistir, que não adiantaria de nada.
Mas sua irmã sempre esteve certa. Valia a pena se rebelar. Só o ato de resistir podia mudar o mundo." 

É um livro sobre lutar por uma sociedade justa, em que mulheres possam viver em liberdade e ser quem quiserem, sem terem de ser mandadas pra prisões por isso. E tudo com romance, vestidos bonitos e diálogos incrivelmente bons e sutis. Realmente, um Y.A. de alta qualidade para inspirar as gerações mais jovens (e a nós, as mais adultas, também, risos).

~livro recebido em parceria com a editora~

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