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06 agosto 2018

Kundera já sabia que ser sério é a maior palhaçada de todas

Todo mundo sabe que meu autor preferido - e uma das minhas pessoas preferidas também - é o Milan Kundera (aquele mesmo que escreveu A insustentável leveza do ser, entre outros livrinhos maravilhosos). Faz anos que leio as coisas que esse homem escreveu e admiro tudo porque que homem esclarecido. Só que ele não é um Ian McEwan da vida que sai por aí dando entrevistas a torto e a direito. Não. Ele é um senhorzinho que não curte muito essa coisa de falar com pessoas porque acha que as obras falam por si mesmas e não quer que as pessoas analisem enlouquecidamente as semelhanças entre ele e seus livros.

Só que, lá pelos anos 80, a Paris Review conseguiu fazer uma entrevista com o Kundera - entrevista essa que durou dias pra ser realizada porque não foi aquelas coisas de pingue-pongue não, foi uma conversa real. E, passeando pelas estantes da biblioteca da faculdade, eu achei essa bendita entrevista. Obviamente não vou colocá-la na íntegra aqui, até porque a revista liberou o acesso no site, mas só quero deixar registrado por que esse cara é realmente incrível.

~Kundera novinho com olhar de que diabos cê tá fazendo com essa câmera~

KUNDERA: Aliás, você percebe que as pessoas não sabem como ler Kafka simplesmente porque querem decifrá-lo? Em vez de se deixarem carregar por sua inigualável imaginação, procuram alegorias e se saem com nada mais além de clichês: a vida é absurda ou não é absurda, Deus está fora de alcance (ou ao alcance) etc. Você não pode entender nada de arte, especialmente de arte moderna, se não entende que a imaginação é um valor em si.


ENTREVISTADOR: Mas por que o senhor escolheu a forma de farsa para um romance que não tem a menor intenção de ser um entretenimento?
KUNDERA: Mas é entretenimento! Não entendo a aversão que os franceses têm ao entretenimento, por que eles têm tanta vergonha da palavra "divertissement"? Eles se arriscam menos a entreter do que a serem chatos. E também se arriscam a cair de amores pelo kitsch, esse doce e falso embelezamento das coisas, a luz rosa que banha obras modernistas como a poesia de Éluard ou o recente filme de Ettore Scola, O baile, cujo subtítulo poderia ser: "A história francesa como kitsch". Sim, o kitsch, e não o entretenimento, é a verdadeira doença estética. O grande romance europeu começou como entretenimento, e todo romancista de verdade tem nostalgia disso. Na realidade, os temas desses grandes entretenimentos são muito sérios - pense em Cervantes! Minha ambição de vida tem sido unir a seriedade máxima da questão com a leveza máxima da forma.


Eu amo um homem. ♥ 

2 comentários:

  1. Menina, eu li Kundera no título desse post e fiquei "mas será? num pode ser"
    E sim, era, haha
    O único livro que li dele foi A Festa da Insignificância, livro que amo demais, mas infelizmente não entendo nada de literatura pra conseguir decifrar ou entender o que ele quis dizer :/
    Só acho tão engraçadinho e tão gostosinho a sensação que ele me dá que ai, quase marquei o livro todo no meu caderninho de quotes eue
    Um dia ainda vou entender o suficiente desse mundo de letras pra conseguir captar o que esses seres maravilhosos querem passar

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  2. Nunca li nada do autor, infelizmente. Mas esse livro sempre está na minha lista de desejados, quero iniciar a leitura de Kundera por ele (não admito começar por outro huahsua). Que genial esse trecho da entrevista, Mia! É uma aversão que os letrados parecem ter com a palavra 'entretenimento' mesmo, como algo igual ao termo superficial, fútil, etc. Mas o romance começou mesmo como entretenimento e não deixa de ser, até hoje, apenas alguns nos exige um pouco mais em algumas reflexões do que outros... enfim. Gostei muito da palavra do autor aqui. Espero, ainda esse ano, adquirir um Insustentável leveza do ser para, finalmente, conhecer um pouco do autor.

    monautrecote.blogspot.com

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