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01 agosto 2018

O tempo desconjuntado


Acho que todo mundo já passou por algum momento em que começou a questionar a realidade. Até onde o que vemos realmente é verdade? A minha vida é real? A mesa que estou vendo é de verdade ou é apenas um produto da minha mente? Okay, pode ser que você nunca tenha questionado sua realidade, mas eu já a questionei o suficiente pra saber que não é muito bom ficar pensando nisso porque tá aí uma vibe erradíssima. 

Philip K. Dick não parece ter chegado a essa conclusão porque basicamente todos os seus livros questionam a realidade. Já li o suficiente dele pra saber que o cara era doido. Mesmo. Mas eu adoro gente doida justamente porque elas não costumam simplesmente aceitar as coisas como elas são e isso sempre gera algo interessante, seja um filme, uma música ou até mesmo um livro, como é o caso do que eu li recentemente. 

O tempo desconjuntado
Philip K. Dick
272 páginas
Suma
Ano de publicação: 2018 
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Sobre o que é: Ragle Gumm é um veterano da Segunda Guerra Mundial que vive pacatamente, com sua irmã, seu cunhado e seu sobrinho, num subúrbio dos EUA em 1959. A vida é bem simples pra o Ragle, que ganha seus dinheiros participando de um concurso de jornal que consiste em adivinhar o quadradinho onde o homenzinho verde vai aparecer entre 1208 quadrados. A vida parece simples pra todo mundo, uma família estadunidense normal dos anos cinquenta, até que Ragle começa a perceber coisas sumindo na frente de seus olhos e, no lugar delas, é sempre deixado um bilhete com o nome da coisa em questão, como "vaso de flores" e "barraca de refrgerantes". E agora, o que fazer, é a grande questão de Ragle. 

Uma coisa que eu amo demais na escrita do PKD é que o leitor realmente entra de cabeça na história e consegue visualizar o que está acontecendo com as personagens. Tem livro que simplesmente não dá pra fazer isso e, apesar da gente conseguir visualizar alguma coisa na maioria, a imersão que ocorre quando lemos PKD é algo único e maravilhoso porque sempre sabemos que aquele local, tão confortável ao leitor após cinquenta páginas, não é o que parece. Nunca é.

E é isso que temos em O tempo desconjuntado: um livro que começa como um romance de costumes dos estadunidenses* do final dos anos cinquenta, com suas rotinas, seu esforço para esquecer da guerra e suas comidas cada vez mais gordurosas. Então, um dia, uma coisa muda. Apenas um tipo de falha na matrix, nada demais, algo pelo qual todos já passamos: o interruptor de luz não está no lugar em que deveria. A gente tateia, no escuro, mas ele simplesmente não está lá. Só que ele nunca esteve. E essa memória muscular veio sabe-se de lá de onde. É algo banal, simples, nada enlouquecedor, mas é o primeiro indício de uma mudança impactante e permanente. * adoro a palavra estadunidense, parece coisa de artigo de antropologia, risos. 

Inclusive, falhas na matrix, um dos meus tópicos favoritos da vida pois TODO MUNDO tem uma historinha sobre. É algo que estava lá há um segundo e simplesmente sumiu, é a pessoa que foi vista em dois lugares diferentes, alguém que perdeu horas de sua vida e não faz ideia do que fez nesse tempo... As histórias são diversas e meio assustadoras porque quem nunca sentiu aquele desespero ao perceber algo fora do lugar, estranho e sem explicação? Mas geralmente isso pode ser facilmente explicado, quando a gente se acalma, por falhas no processamento de informação mesmo, distração etc. Porém: e se não fosse só uma distração? E se realmente houvesse toda uma trama por trás de uma aparentemente simples falha e toda a sua vida fosse uma mentira?

Esse livro é tipo isso.

"Você já desconfiou da própria realidade?'

Eu fiquei completamente doida lendo ele. Peguei pra lê-lo porque tava entediada, não tinha nada pra fazer e tinha esse livro, que havia chegado de parceria há algum tempo e eu precisava ler. Como confio no taco do PKD, peguei o livro, mas pensei que fosse ler um, dois capítulos no máximo. E FOI ASSIM QUE LI METADE DO LIVRO EM UMA HORA. Sério, eu literalmente devorei as páginas porque meu deeeeeeeeeeeus que livro bom. Você sabe que tem algo de errado, mas não sabe exatamente o que é, tudo que sabe é o que diz o título: o tempo está desconjuntado, fora de ordem, todo errado. Mas que diabos é o tempo? É o tempo do relógio? É algo mais psicológico? É uma vibe Thomas Mann em A montanha mágica (inclusive, leiam)? A gente não sabe até ficar sabendo e quando se fica sabendo é tudo muito AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH NÃO ACREDITO QUE COISA MAIS DOIDA MAS GENTE POR QUÊ? tudo junto e em caixa alta mesmo.

Claro que não é um livro perfeito, até porque foi um dos primeiros livros escritos pelo PKD (publicado originalmente em 1959, inclusive; ou seja, ele tem quase lindos sessenta aninhos de existência e ainda bem que a Suma teve a inspiração de publicá-lo) e isso qualquer leitor que conheça um pouco da obra do cara consegue perceber sem dificuldade alguma. Tem algumas coisas que simplesmente não foram explicadas e isso me deixou agoniada, porque criei várias teorias em torno dessas coisas e o final não correspondeu ao acontecimento delas e eu fiquei mas gente, que diabos foi aquilo?, porém respirei fundo e superei porque o fato é que o PKD sobrevivia à base da escrita e, naquela época, ele tinha de produzir muito, mas muito mesmo, pra conseguir pagar as contas - e não sobrava muito tempo pra revisão, até porque o mercado de ficção científica da época não era lá grandes coisas e não apoiava autores como ele. Então, não dá pra passar uma régua tão alta assim nesse livro. No entanto, mesmo assim, que livrinho bom.

O mais legal, talvez, é perceber que ele inspirou diversas coisas que hoje fazem parte da nossa cultura pop e que pareciam óooo super inovadoras, risos. Mentira, o mais legal mesmo é que terminei ele e em seguida foi anunciada a descoberta de água líquida em Marte e isso faz tanto sentido com o livro e é tão legal que estou AAAAAAAAAAAAAAAAAAH QUE MARAVILHOSO!!!!

Obviamente estamos bem longe do futuro previsto por PKD em O tempo desconjuntado - e ainda bem por isso! -, mas sempre dá pra ler uns livrinhos de ficção científica e ficar de olho nas descobertas dos cientistas pra ver se a vida vira, afinal de contas, uma história de ficção científica de uma vez por todas. (Torcendo!)

Em um quote:

"A palavra não representa a realidade. A palavra é a realidade." 

~livro recebido em parceria com a editora~

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3 comentários:

  1. UAU! Que resenha SENSACIONAL, sensível e deliciosa de ler. Fiquei louca para conferir a obra. Adoro tramas que captam noções que parecem absurdas, mas que são formuladas como metáforas para o nosso hoje e, principalmente, para questioná-lo. Que lindezura!

    semquases.com

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  2. Não li nenhum livro dele ainda, mas essa sinopse me chamou muita atenção.
    Vivo me perdendo nessas coisas, perco sempre os lugares. kkkkk
    E o que você falou é verdade, todo mundo tem uma história com erro na matrix.

    Apartamento 29

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  3. Que dica maravilhosa, já coloquei como quero ler!

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