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08 agosto 2018

Vivre la nostalgie


Eu sou uma pessoa velha. Não de nascimento, porque vinte e poucos anos, isso não pode ser considerado velho de forma alguma. Mas sou velha mesmo assim. É algo de alma, algo de sentimento, algo de afinidade. Sou velha porque o passado me deixa muito mais encantada do que o presente. 

Conversando com o namorado esses dias sobre lugares pra ir caso a viagem no tempo se torne possível (esse é um tópico muito discutido nesse relacionamento, por sinal), cheguei à conclusão de que todos os meus lugares e pessoas habitam o passado. Eu jamais iria querer viajar pra o futuro pra ver no que a humanidade se tornou. O futuro não me interessa nem um pouco. Já o passado, muito.

Quando ganhei meu computador, uma das primeiras coisas que li foi o site Domínios Fantásticos, que é o melhor site de teoria da conspiração que existe (sério). Lá, um senhorzinho ufólogo fala sobre os acontecimentos do mundo e relaciona tudo a aliens, é claro. Obviamente durante algum tempo fiquei a doida da teoria da conspiração e total acreditava no fim do mundo, risos. Que o site teve um impacto forte em mim, isso é inegável. Mas isso só ocorreu justamente porque sou fascinada por história antiga e quando lia sobre os alienígenas do passado (HAHAHAHAHA), desejava do fundo do meu coração poder viajar no tempo pra ver tudo aquilo acontecendo.


Isso me fez perceber que a maior parte dos meus filmes, séries e livros preferidos são ou sobre momentos históricos ou sobre pessoas viajando no tempo e visitando coisas que já aconteceram (olá, Doctor Who; inclusive, acho um saco a maior parte dos episódios que se passam no futuro porque eu quero é ver roupas de épocas antigas e como as pessoas sempre foram as mesmas, no final das contas e ficar encantada imaginando a vida em outras épocas). 

Toda essa reflexão veio porque assisti, pela milésima vez, a um dos meus filmes preferidos: Meia-noite em Paris. Eu sei, eu sei: é do Woody Allen e nós o odiamos. Pra falar a verdade, eu nem odeio o cara, só acho ele super escroto e também acho que os filmes dele, em geral, não são lá essas coisas. São só um monte de gente branca falando sem parar e inventando motivos pra drama quando a vida tá é ótima. Mas eu preciso dar o braço a torcer porque o que ele fez em Meia-noite em Paris é uma das coisas mais lindas da história do cinema.

A história vocês já devem conhecer, mas vamos lá: Gil é um roteirista de Hollywood que está passando as férias em Paris com sua noiva entojada. Ele quer largar de escrever roteiros de blockbusters e ser o que sempre quis: um Escritor de Verdade. O grande projeto dele é terminar o romance que está escrevendo e viver tranquilamente em Paris, onde tantos outros grandes artistas viveram. Mas a noiva dele não quer e só se importa com riqueza e passeios e futilidade. Gil fica tristão e sai bêbado pelas ruas de Paris até que, quando bate a meia-noite, um carro antigo pára e o pessoal animadíssimo o convida pra ir à uma festa. Ele vai, né? E então percebe que está numa festa com F. Scott Fitzgerald, Zelda Fitzgerald, Hemingway e mais tantos outros grandes nomes do passado, lá por 1920.


Não preciso nem dizer que o Gil SURTOU de uma forma nunca d'antes vista e só queria saber de voltar ao passado e dar uns rolês com os artistas da era do jazz - e quem não teria a mesma reação, né? Inclusive SONHO DA VIDA. O filme poderia continuar assim e seria lindo de qualquer forma, mas aí acontece algo: Gil, na Paris de 1920, conhece uma moça, Adriana, que vive lá e é amante de vários pintores e poetas, mas que é muito melancólica porque, pra ela, a era de ouro já havia passado e ela jamais viveria aquilo.

Não vou contar o que acontece porque realmente quero que vocês assistam a esse filme, mas o fato é que o Gil fica doidão porque vá se cataaaaaaaaaaar, Adriana, você não aproveita o seu presente!!!! Então ele se dá conta de que ele também não aproveita o dele e que, pra pessoas do futuro, o agora poderá ser a melhor era que já existiu.

Tenho sérias dificuldades em imaginar a era em que vivemos como a melhor de todas, mas é inegável que ao menos temos mais qualidade de vida do que nunca tivemos e a internet, apesar de fazer passar raiva às vezes, é uma das melhores coisas que já aconteceu e imaginar a vida sem toda essa hiperconexão que temos hoje é quase inconcebível. Em termos de facilidades, a vida hoje é bem melhor do que jamais foi. Mas então por que ainda tem tanta gente que sente uma nostalgia por épocas passadas e que largaria tudo, sem pensar muito, pra viajar no tempo e viver num momento em que não existia energia elétrica?

Talvez a nostalgia toda ocorra por causa da arte. Claro que o Kundera diria que quem quer ir para outro lugar (no tempo ou no espaço) o quer porque tem o desejo de fugir de algo. Isso provavelmente é verdade, mas acho que não se aplica o tempo inteiro. Acho que é mais uma questão de tédio generalizado. Estamos tão cansados do que há no presente porque o vivemos e não temos escapatória alguma, não é possível ir para frente ou para trás, temos de esperar o tempo se mover (e o tempo, de fato, existe, não somos nós que passamos por ele, ele PASSA de verdade; podem pesquisar, é sério, fomos enganados esse tempo todo). Não conseguimos apreciar o presente porque ele já está muito familiar e não admiramos a beleza efêmera da nossa geração. Mas a arte nos faz sonhar com realidades diferentes, pessoas diferentes, mundos diferentes. A arte nos mostra todos esses livros e filmes e pinturas e estilos de vida que já passaram e que eram tão cheios de um brilho que parece não existir mais. Mas existe. Apenas de outras formas.

É por isso que eu amo a arte. Ela é um grande respiro pra vida.

2 comentários:

  1. Outro filme que traça esse paralelo TEMPO-VIDA-ARTE é o famosíssimo Sociedade dos Poetas Mortos, né? <\3

    Sabe que sempre que penso em Meia-noite em Paris (assisti só uma vez, no corujão) lamento não ter estado tão motivada a registrar meus devaneios e divagações diárias num blog ou em qualquer outro lugar na época, porque, como tu fez nesse texto, é um filme tão lindo sobre o qual pensar e que suscita tantos... Tudos (?), sabe? Já pensei em reassistir só pra inflamar a chama da vontade de escrever sobre, mas fico com medinho de simplesmente não conseguir.

    Esse teu texto é tão lindinho (tome o diminutivo como afeição, não condição limitante), sabe? Meu tipo de texto preferido e decididamente o que me faz gostar de acompanhar pessoas que escrevem online, muito antes de qualquer resenha, pra ser sincera.
    Esses textos que falam de nós e falam de tudo e falam de nada.
    Ele sintetiza as coisas de um jeito que se relaciona muito comigo, embora eu não fosse conseguir transcrever essa relação assim.
    Talvez um dia eu ainda tente, ao menos.

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  2. Esse é um dos meus filmes preferidos.
    Ele mudou muito meu ponto de vista sobre isso de desejar o passado. Percebi que quando eu fazia isso só pensava nas coisas boas que via. E acho que isso não é muito justo com o meu presente. Tenho tentado diminuir isso, mas é bem difícil kkkkk

    Apartamento 29

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