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Os vestígios do dia, de Kazuo Ishiguro


Kazuo Ishiguro se tornou um dos meus escritores preferidos assim que terminei a leitura de O gigante enterrado, obra excelente que por motivos inexplicáveis sempre acaba esquecida no rolê. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2017, Ishiguro é muito contestado no meio literário pois, até onde pude averiguar, as pessoas costumam achar que lhe falta emoção em sua narrativa, que de fato é bem contida se comparada a de outros ganhadores do Nobel. No entanto, eu discordo disso, já que é bem difícil escrever um livro da forma com que Ishiguro escreve, de modo contido e reservado, mas repleto de emoção para o leitor atento. Assim é Os vestígios do dia

Os vestígios do dia
Kazuo Ishiguro 
285 páginas 
Companhia das Letras 
Tradução: José Rubens Siqueira
Ano de publicação: 2016 

Sobre o que é: No verão de 1956, depois de três décadas de serviço numa das mais distintas mansões inglesas, o mordomo Stevens tira uma semana de férias e viaja para o oeste do país no automóvel emprestado por um novo patrão. Vai ao encontro de uma antiga companheira de trabalho, que terminou há algum tempo um casamento infeliz. Durante a viagem, medita sobre a natureza da profissão de mordomo e mergulha em lembranças do ex-patrão, Lord Darlington. Das entrelinhas de seu relato, estruturado em forma de diário de viagem, emerge aos poucos um quadro das articulações políticas de bastidores entre influentes figuras britânicas e representantes do nazismo no período entreguerras. Ao mesmo tempo, revelam-se as tortuosas e secretas relações afetivas do protagonista-narrador. O público e o privado, o dever e o sentimento equilibram-se neste que é um dos grandes romances do século XX. 

Demorei bastante para ler esse livro. Não por seu tamanho, já que ele tem menos de 300 páginas, mas por uma mistura de calor (ler no verão, como vocês conseguem?) com a lentidão que uma história como essa exige. Assim como com A montanha mágica, deliberadamente não me cobrei para finalizar logo a leitura, já que, afinal de contas, a proposta de Ishiguro é que leiamos o diário de um mordomo inglês da velha guarda, antiquado e respeitadíssimo, que dedicou mais de trinta anos de serviço a um Lord inglês cuja influência política conduziu em parte o país e a Europa durante os anos pré-guerra. 

Particularmente, tenho fascínio pela história britânica e ler um livro com tanto contexto histórico - ainda que ficcional baseado em fatos reais - e de uma escrita excelente foi um prazer. Contudo, apesar do prazer de ler uma obra do Ishiguro, a linha que separa o prazeroso do execrável é bem tênue conforme avançamos na leitura e vamos conhecendo as personagens. Não por culta da narrativa, que é impecável, mas por nos depararmos com facetas terríveis de pessoas as quais havíamos sido apresentados como se elas fossem as melhores e mais educadas do mundo. Porém, não é novidade alguma que pessoas educadas também podem ser nazifascistas.

Uma das nuances desse livro, que é repleto delas, é até que ponto protegemos as pessoas de quem gostamos, mesmo quando elas estão claramente erradas e são, até mesmo, monstruosas. Muitas vezes Lord Darlington expressou opiniões que certamente já ouvimos na mesa, em almoços de família, especialmente durante o ano passado, falando racismos, xenofobias e preconceitos abertamente, pensando estar contribuindo para uma sociedade melhor quando na verdade estava apenas se valendo de uma ideologia do ódio para destruir o diferente. A tolerância, apesar de ser um caminho nobre, não é sempre bem-vinda. Não podemos ser tolerantes com o intolerante. 

Sim, nazifascistas. É isso que Lord Darlington, proprietário de Darlington Hall, uma grande mansão do interior da Inglaterra, era. Mas como Stevens, o mordomo, é fiel a Lord Darlington e acredita que um mordomo digno deve ser leal e não questionar os motivos ou pensamentos de seu patrão, acaba por não perceber a verdade: apesar de toda a pompa e educação, Lord Darlington é nazista. Contudo, a incapacidade de perceber a verdade é tanta que mesmo quando ele manda Stevens despedir duas moças que trabalhavam na casa e que eram de ascendência judaica, ele simplesmente cumpre seus deveres sem questionar o patrão e nem sequer apoiar Miss Kenton, a governanta, que fica horrorizada com aquilo e ameaça se demitir - mas não o faz por medo de não conseguir se sustentar, afinal era uma moça solteira e sozinha no mundo em plena década de 1930. 

Stevens é o típico mordomo inglês de que a gente cresceu ouvindo histórias: não demonstra emoção alguma, é contido, educado e venera seu patrão. Porém, como bem demonstra Ishiguro, tal figura não significa algo bom pois até mesmo a educação e as boas maneiras devem ceder em vista de algo errado. Contudo, o Stevens mordomo nunca cede lugar ao Stevens homem, mesmo em face de seu pai agonizando, do amor nunca verbalizado por Miss Kenton ou de reuniões nazistas orquestradas por Lord Darlington. Stevens é todo contenção e profissionalismo, mas isso tem um custo.

É incrível como o custo vem ao final da narrativa, quando nos deparamos com aquilo por que esperamos durante todo o livro para... nada. O clímax se faz por olhares e pensamentos, os gestos são para dentro e a profissão mais uma vez precede o homem. É triste ver o destino de Stevens e de Miss Kenton, mas ainda assim é bonito de uma forma melancólica perceber os detalhes das relações humanas e como cada decisão nos altera o destino.

Não é um livro para ser lido por todos ou em qualquer momento, mas é uma leitura linda, deliciosa e reflexiva que recomendo fortemente a todos que apreciam o estilo.

Em um quote:
Sem dúvida, não havia na época nada a indicar que incidentes tão evidentemente pequenos tornariam para sempre irrealizáveis sonhos inteiros. 

3 Comentários

  1. Adorei e fiquei morrendo de vontade de ler! Ishiguro já está na minha lista tem tempo!

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  2. Também sou apaixonada por história da Inglaterra, ainda mais com contexto histórico, lendo sua resenha fiquei com vontade de ler, mas eu ando tão devagar na leitura que eu ficaria o resto do ano na página 20.
    :/
    To empacando em infanto-juvenil ultimamente.
    Bela resenha.
    Bjs

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