21 novembro 2017

Não vai acontecer aqui

Não vai acontecer aqui
Sinclair Lewis
406 páginas
Alfaguara
Ano de publicação: 2017 

Sobre o que é: lá nos Estados Unidos dos anos 30 um cara fascista, racista, antissemita, misógino, mas com uma baita campanha de marketing se candidata à presidência e acaba ganhando. Só que, nessa de se candidatar, ganhar e exercer o poder, tem muita gente que não acredita que ele permaneceria muito tempo no comando, afinal "isso não pode acontecer aqui na América, nós somos muito civilizados pra esse tipo de coisa". Uma dessas pessoas é o jornalista, editor de um jornal em uma cidadezinha, Doremus Jessup. A gente acompanha a descrença dele o tempo todo, mesmo perante as maiores atrocidades cometida por esse governo ditador, até que certos fatos obrigam Jessup a agir. 

Por que ele é bom? Eu vou falar a mesma coisa aqui que falei na resenha de Admirável mundo novo: ele é bom, mas não parece. Digo isso porque as primeiras cem páginas são extremamente chatas, cheias de descrições de comícios eleitorais e gente completamente sem noção alguma de como se faz política falando bobagens e apoiando Buzz Windrip, esse candidato horroroso à presidência. 

Mas continue firme, porque o livro melhora. Muito. 

Não vai acontecer aqui é um desses livros que estavam completamente esquecidos, mas do qual o povo começou a lembrar com essa onda de direita que tem tomado conta do mundo, mais especificamente dos Estados Unidos com o Trump no poder do país. Há quem diga que esse é um livro profético porque o candidato que ganha as eleições, o Buzz, é basicamente um Trump dos anos 30. O discurso de fazer a América grande novamente é bem parecido, assim como os valores e as medidas tomadas (e a burrice, pra não mencionar a grande burrice que ambos têm, mas enfim). Eu entendo por que as pessoas fizeram esse paralelo, mas realmente acho que não é o caso. Infelizmente, desde que a gente tem um sistema mais ou menos livre, sempre há épocas em que a extrema-direita toma conta porque o povo novamente esquece o quão terrível isso pode ser. Mas ideologias políticas à parte, vamos falar do livro. 

A história, ao contrário do que muitos dizem, não é a da ascensão e queda do Buzz Windrip nem como um presidente falastrão e fascista conseguiu ganhar nos EUA. Não, nada disso. Claro que há tudo isso no plano de fundo, mas a história mesmo é a de Doremus Jessup e como gente normal e relativamente esclarecida consegue viver em uma ditadura. 

Já digo: não é fácil. 

Doremus se ferra loucamente, mas não mais do que milhares de outras pessoas no livro. Nisso ele é bem parecido com 1984, que mostra como um homem comum sobrevive nessas condições. 

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Como o Doremus é jornalista, uma questão bastante abordada no livro é a censura que a imprensa sofre. Aliás, nem é mais censura porque o governo simplesmente virou DONO de todos os jornais, de todas as prensas, de todo o maquinário e manda pra o campo de concentração (sim, campo de concentração) o jornalista que se recusar a fazer o que eles querem. Não é porque eu estudo Jornalismo, mas isso é forte demais e obviamente me lembra a nossa própria ditadura aqui. Mas creio que isso não é diferente em ditadura alguma: governos totalitários sempre usam de medidas drásticas pra conseguirem o que querem, não importa o quê, e a mídia, por mais corrupta que possa ser, é um baita veículo - e eles precisam comandá-la se quiserem permanecer no poder. 

Mas o que realmente tem destaque pra mim no livro - e certamente é uma coisa que eu não esperava - é a atuação das mulheres contra esse governo horroroso do Windrip. Mulheres espiãs, mulheres que se unem a organizações secretas, mulheres que estão dispostas a ser estupradas (!) pra conseguir alguma informação. Não vou citar nomes pra não dar spoilers, mas não tem um monte delas no livro e são maravilhosas demais. Jamais esperaria que um cara daquela época teria escrito personagens femininas tão fortes e decididas quanto essas. Ponto pra você, Sinclair! 

"Mas, de qualquer jeito, filhos a gente não vai ter. Ah, claro que gosto de crianças! Queria ter uma dúzia desses diabinhos por perto. Mas se as pessoas foram moles a ponto de entregar o mundo de bandeja pras múmias empavonadas e pros ditadores, melhor não esperar uma uma mulher decente traga filhos pra esse manicômio! Ah, quanto mais a pessoa gosta mesmo de crianças, menos vai querer que nasçam, daqui pra frente!" 


É muito interessante também ver como várias personagens são gente boa, gente como a gente, e conseguem mesmo assim apoiar um governo desses realmente na esperança de que as coisas vão melhorar. Não é diferente da vida real, onde a gente encontra pessoas dentro da nossa própria família que são pessoas bacanas, mas que pra política são ingênuas a ponto de apoiar esses extremismos que só tiram os direitos dos outros e ferram com a vida dos mais pobres. O livro é bem realista nesse quesito. (E é meio triste perceber que esse livro foi escrito em 1935, mas que as coisas não mudaram tanto assim.) 

Por que ele é ruim? Sabe quando alguém tem uma ideia muito boa, mas não sabe exatamente como colocá-la em prática? Então, com o Sinclair Lewis foi mais ou menos isso. Ou talvez eu ache isso porque li o livro em 2017 e não sou acostumada com a literatura dos Estados Unidos de 1935, que era toda cheia de descrições intermináveis sem sentido algum. Pra mim, o problema do Sinclair é o mesmo problema que eu tenho com os livros do Stephen King: ambos demoram demais pra criar o ambiente pra só então começar a história. Eu demorei 16 dias pra lê-lo. E, sim, 16 dias pra mim é um tempo imenso. Em 16 dias eu leio uns 3 livros. Mas esse me tomou mais atenção na leitura (e eu também estava toda atrapalhada com o final de semestre, então vamos colocar isso na equação). 

Mas é aquilo: persistindo, o livro fica bom de verdade. É só ter um pouco de paciência com uma narrativa mais antiga e política, com a qual não estamos acostumados. 

Você vai gostar se... é chegado numa distopia, está curioso pra saber que diabos esse livro tem a ver com o que está acontecendo hoje em dia, gosta de ler histórias com temas políticos ou só quer ler mais um cara que venceu o Nobel de Literatura. 

Em um quote: 

Ele receava que a luta mundial do momento não fosse do comunismo contra o fascismo, mas da tolerância contra a intolerância. 

 ~livro recebido em parceria com a editora~

16 comentários:

  1. Não parece ser o meu tipo de livro, então vou deixar essa dica passar, mas sua resenha ficou ótima, deu para fazer uma ideia bem legal de como é o livro e, pelo visto, foi bem sincera no que dá pra gostar e o que não dá!

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  2. Sinceramente apesar dos elogios positivos eu fiquei meio assim de como tu falastes que as cem páginas foi chata, isso já desmotiva e muito, ainda mais se irá se tornar arrastada.
    Beijinhos

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  3. Olá!
    A premissa do livro é interessante, mas confesso que não me cativou o suficiente para ler agora. Talvez eu dê uma chance para ele futuramente, quem sabe.
    Bjos
    Lucy - Por essas páginas

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  4. Só pelas primeiras cem páginas eu odiaria a leitura, não gosto de livros com descrições desnecessárias, que pouco contribuem para história em si.
    O quote destacado é ótimo, mas ainda assim não sei se leria, quem sabe.

    Beijos
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com

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  5. Olá!
    Não sou muito chegada em distopia e lendo sua resenha vi que a leitura dele foi bem sacrificante e demorada. Não senti conexão com o enredo então certamente não encararia essa leitura.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  6. Oiee!
    Se eu lesse essa resenha uns três anos atrás, diria que que esse livro não faz muito o meu tipo, mas ultimamente estou lendo de tudo um pouco e me interessando mais por livros com esses temas que você apresentou, fora que adoro distopia. Então acredito que posso gostar e muito. Adorei sua resenha, parabéns!
    Bjos, Bia!

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  7. Olá, tudo bom?

    Esse seria um livro que eu passaria batido se não fosse a sua resenha. Porém, como você disse, ele voltou a ser lembrado depois do Trump ter subido ao poder nos Estados Unidos. Parece ser um livro denso e que precisa ser lido com atenção, ainda mais que no começo é um pouco chato. Todavia, parece ser o que vale a pena ser lido e eu, uma estudante de Administração Pública, fiquei curiosa para começar essa leitura.

    Enfim, adorei a postagem e agradeço a indicação :)
    Abraços.

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  8. Olha eu não conhecia esse livro e não curto distopias, mas eu amei a capa desse livro e adorei saber mais sobre a história, bem instigante e me deixou mesmo curiosa, irei procurar por ele, obrigada pela dica.

    Beijos

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  9. Oi, tudo bem?
    Apesar de eu ter visto que esse livro demora um pouco para fluir, eu me interessei bastante, curto livros do gênero e pelo visto acho que eu gostaria bastante! A capa é maravilhosa e estou precisando urgentemente ler novas distopias! Adorei a dica!

    ...
    Abraços,
    @cluaz

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  10. Olá, ótima resenha. Ainda não conhecia esse livro. A gente sempre acredita que "não vai acontecer aqui", que não vamos retroceder, mas como acontece no livro, vemos que infelizmente acontece na vida real até hoje.

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  11. 16 dias é muito tempo mesmo, já fiquei com os dois pés atrás por conta disso. É incrível que coisas assim aconteçam, não dá para tolerar este tipo de atitude, ainda mais de um líder nacional. Outra coisa que me matou foi esta demora em realmente começar a história.
    Bjs Rose

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  12. Oi, tudo bem? Vi esse livro bem pouco por aí, mas a sua resenha é a primeira que leio. Aliás, que ótima resenha! Gostei muito da sua contextualização. Eu, com certeza, leria, porque causa do tema e por envolver um jornalista (sou formanda na área, e confesso que leio/vejo quase nada de narrativas que têm o protagonismo de jornalistas e gostaria de conhecer mais). Uma pena que o autor não sou desenvolver a história, aconteceu isso comigo em Ninguém é herói, acabei achando a maior chatice. Mas, acredito que, pelo teor político e tão atual, esse livro se faz muito necessário. Que doido um livro tão antigo ser quase uma previsão do futuro, né? *assustada*

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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  13. Amei a resenha e o livro parece ser algo - realmente - imprevísivel! Gostei da atuação feminina e principalmente por ter esse destaque. Eu gostaria de ler!

    Belo post!

    Lendo Ferozmente | Papo Inverso

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  14. Olá,

    Ultimamente, eu ando lendo muito livros com uma começo mais arrastado, por isso agora eu quero coisas mais leves, fáceis de ler, por isso deixarei a dica passar (por agora).

    Beijos,
    oculoselivrosblog.blogspot.com.br/

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  15. Hey!
    Nossa amei esse livro, parabéns pela sua resenha. É importante livros como esse na sociedade, embora muitos ainda estejam fechados pra esse tipo de leitura. Em tempos como esse, essa rivalidade entre esquerda e direita, é bom buscar conhecimento e nada melhor que em livros.

    Haulisson, Menino livros.

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  16. Não gosto de livros com temas políticos e descrições intermináveis sem sentido me irritam demais. Acho que eu não suportaria as 100 primeiras páginas para chegar na parte interessante. Apesar de ter ficado curiosa com a premissa, não fiquei com vontade de fazer a leitura.

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