04 janeiro 2018

Anna Kariênina

Anna Kariênina
Liev Tolstói
840 páginas
Companhia das Letras
Ano de publicação: 2017 

Sobre o que é: apesar de uma das personagens dar título ao livro, a história é sobre duas famílias da aristocracia russa dos tempos imperiais, uma feliz, outra infeliz. Anna é a mulher infiel que vai atrás de um conde e abandona um filho por ele. Liévin é o cara que não se sente muito bem na alta sociedade e prefere viver no meio do mato, cuidando de suas vaquinhas, e só quer saber de formar uma família e ser feliz de uma forma bem tradicional. Ambos são extremos um do outro, mas reais demais a ponto de nos identificarmos com as situações familiares na época dos tsares sem muito espanto. 

Por que ele é bom? Gente, como começar a falar de Anna Kariênina? Além de ser um baita calhamaço russo, com trocentas personagens de nomes estranhíssimos e impronunciáveis, ele é atemporal. Sim, ele é um livro que se passa na Rússia tsarista. Sim, ele foi escrito em 1877. Sim, ele faz sentido até hoje. 

Antes de ler esse havia lido, do Tolstói, apenas um outro: A morte de Ivan Ilítch, que é mais uma novela do que um romance. E sim, eu amei demais essa leitura, e tinha muita vontade de ler outras coisas dele, mas morria de medo de iniciar um livrão russo porque LIVROS RUSSOS ASSUSTAM AAAAAAAAH. Mas eu amei a escrita do Tolstói quando li aquele outro e lembrava que a narrativa era bem tranquila e quase uma coisa meio novela das seis, de tão gostosa. envolvente e sabendo tratar de temas pesados com leveza e de forma que eles façam sentido mesmo que tantos anos tenham se passado desde a publicação original. Então, quando a Companhia das Letras anunciou que ia sair uma nova edição de Anna Kariênina, que estava esgotadíssimo desde que a Cosac Naify quebrou, eu fiquei tão empolgada que assim que pude pedi pra Cia um exemplar em parceria porque PRECISAVA desse livro comigo. 

E o livro chegou. Mas ficou alguns meses parado na minha estante porque eu morria de medo de pegá-lo pra ler e demorar demais - e aí tinham as coisas da faculdade, os trocentos trabalhos, aquela reportagem gigantesca que tive de fazer durante o semestre e blablabla... Então deixei pra lê-lo em dezembro, nas férias, quando eu pudesse me dedicar totalmente a ele. Mas me enganei totalmente ao pensar que demoraria a lê-lo, que ele me demandaria muito tempo... Que nada! Foram 3 semanas de leitura e poderia ter sido bem menos se dezembro não fosse o mês em que todo mundo à minha volta faz aniversário e que há as duas maiores festas do ano. Dezembro foi corrido porque havia muitos compromissos sociais (quem lê nem pensa que sou a pessoa mais introvertida que se pode conhecer, hihihi), mas mesmo assim eu me grudava no livro a cada tempinho livre que tinha pois maravilhoso demais!!!!

~FEELINGS~

A história é basicamente aquilo que falei lá no início: duas famílias, uma feliz, outra infeliz. Claro que um livro de quase novecentas páginas não vai tratar apenas disso, mas o Tolstói era um gênio literário tão grande que ele soube explorar diversas facetas da vida familiar e da vida interior das personagens de forma que uma hora estão discutindo sobre a liberdade dos mujiques (os camponeses russos, ex-servos, mas que ainda trabalhavam para os grandes senhores de terra por quase nada de remuneração) e a pessoa, mesmo sem entender nada do assunto, se vê genuinamente interessada naquilo e tendo fortes opiniões sobre quem está certo e quem está errado.

Como eu falei lá em cima, existem dois centros no livro e cada um deles tem sua personagem principal. O primeiro é o da própria Anna Kariênina, uma mulher da alta sociedade de São Petersburgo, que é casada com Aleksei Kariênin, um cara importante do governo russo. Só que o Kariênin tem uns vinte anos a mais do que a Anna, que tem por volta de trinta anos na história, e ele é o tipo de cara super prático e sensato, mas não é uma pessoa apaixonada ou que demonstra emoções (o que não significa que ele não as tenha! nem todo mundo é um Furby!) e a Anna já está acostumada a isso porque vive sua vida ao redor da alta sociedade e do filho (que tem uns sete anos quando a história começa), meio que ignorando o marido e entediadíssima com a vida que leva. Só que o livro começa com a Anna indo a Moscou pra tentar salvar o casamento de seu irmão, Oblónski, um cara tão dândi quanto o Lorde Henry de O retrato de Dorian Gray, e que está 100% nem aí pra nada a não ser pra sua vida de luxos e diversões. Nessas, acabou traindo sua mulher e a Dolly (casada com o infeliz) está decidida a abandonar o marido e ir viver na casa da mãe. Pra evitar isso, a Anna vai até lá falar das virtudes do casamento e como o irmão a ama e blablabla. Essa visita dura mais ou menos uma semana e nessa semana há um baile ao qual todo mundo vai, inclusive a irmã mais nova de Dolly, a Kitty, que fica amiga de Anna e está empolgadíssima porque é apaixonadinha por um conde que está lhe fazendo a corte e estará nesse baile. O tal do conde é o Vronski, o cara mais sem sal de toda a literatura, mas que ganha o coração de Anna por ser bonito e não dá a mínima pra Kitty.

~Anna e Vronski, as pessoas mais enjoadas da história~

No outro núcleo temos o Liévin, um cara de seus trinta anos que é um grande senhor de terras e tem uma vibe tão antissocial quanto o Mr. Darcy. Aliás, Liévin é o Mr. Darcy russo, ponto. Ele é amigo de infância de Oblónski, o irmão da Anna, mas é extremamente diferente do cara. Porém, como cresceram juntos a amizade acabou vingando por questões de sentimentalismos e tal. Mas nessas de amizade com Oblónski ele conheceu a Kitty, cunhada do cara, a mesma menina que é apaixonada pelo Vronski e que - vejam bem - é uma princesa! (Lembrando que havia príncipes e princesas na Rússia imperial, mas isso era apenas um título de nobreza; quem realmente era próximo ao trono era o tsarevitch, filho do tsar e parentes homens próximos ao tsar, já que mulheres eram proibidas de assumir o trono desde que Catarina, a Grande, deu um golpe no seu marido, o tsar, a virou a melhor tsarina que a Rússia já teve.) A Kitty tem uns dezoito anos e, pra o Liévin, é linda e um exemplo de virtude em maneiras, tudo o que ele deseja numa mulher. Então ele tem essa paixão por ela e sofre demais por isso, se isola com suas vaquinhas e suas plantações e vai viver sua vida ao saber que ela é apaixonada pelo Vronski. Obviamente as coisas não permanecem assim, mas aí é preciso ler o livro pra saber o que acontece.

~TOO PRECIOUS FOR THIS WORLD~

Eu poderia falar muito, muito mais sobre esse livro, mas todo mundo deveria lê-lo porque ele é bom de verdade. Ponto. É um novelão das seis com uma linguagem extremamente acessível e temas super atuais, como traição, a diferença com que a sociedade trata uma mulher que trai de um homem que trai, relações familiares complicadas, como lidar com a sogra e os trocentos parentes sendo que só se quer ficar em paz e sossego curtindo seu casamento, questões sociais como as dos mujiques, das escolas para todos (a educação, na época, só era acessível à alta sociedade), política e religião (aliás, Liévin é o responsável por metade de todas essas questões já que PESSOA REFLEXIVA DEMAIS, amo muito o Liévin, como vocês já devem ter percebido). Tem de tudo e não é cansativo. Só não li em menos tempo porque a vida nos obriga a fazer outras coisas que não incluem carregar um livro de um quilo e meio pra cima e pra baixo, infelizmente.

Inclusive, quero deixar registrado que uma das coisas que mais amei nessa leitura foi que ela dialoga perfeitamente com o meu livro preferido da vida, A insustentável leveza do ser. Nele, uma das personagens principais fica carregando Anna Kariênina pra cima e pra baixo e dá pra perceber claramente a fonte de onde Kundera bebeu pra formular seu estilo narrativo e suas personagens. Isso porque a prosa do Kundera é bem semelhante a do Tolstói, então é uma delícia de ler ambos os livros e terminei Anna Kariênina querendo reler A insustentável leveza novamente. ♥

Por que ele é ruim? Ele não é ruim de forma alguma. Esse livro, na verdade, beira à perfeição - e só não o chamo de perfeito por um motivo: não consigo gostar do núcleo da Anna. Ele é extremamente bem escrito, a história é envolvente, mas o que me irrita não é a narrativa e sim as pessoas que, ao lerem esse livro, ficam dizendo que a Anna é uma mulher a ser admirada, que ela foi muito corajosa e blablabla. Olha, eu considero a Anna uma pessoa muito egoísta, mimada e fútil. Sim, gosto da crítica à questão do adultério, que era simples para homens e o fim da vida para mulheres, mas não consigo ver Anna como uma heroína e sim como uma mulher que realmente arruinou sua vida e a dos outros (mas não sozinha, o Vronski é tão ou mais culpado ainda) e continuou sendo egoísta até o fim. No entanto, não tenho crítica alguma à escrita do Tolstói, que é realmente deliciosa.

Você vai gostar se... ama um novelão das seis, tem interesse em clássicos da literatura, gosta de nomes russos impronunciáveis ou quer se apaixonar por personagens literários e acrescentar mais um livro aos seus favoritos da vida.

Em um quote:

Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua própria maneira. 

8 comentários:

  1. Eu morro de vontade de ler esse livro, mas me assusta um pouco pelos motivos que você já citou. Acho que é um livro que demanda tempo e dedicação, nesse natal estava comentando sobre leituras com a minha sogra e ela disse que tem esse livro, ficou de me emprestar! Enfim, é uma leitura que quero fazer em 2018! haha Beijos!
    Colorindo Nuvens

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  2. Mia, começar o ano com essa resenha foi um enorme acerto. Li apenas duas obras de Tolstoi, O Cadáver Vivo e os Contos Completos. Ambos foram leituras sensacionais e que me introduziram nas obras da literatura russa. Olha, sinceramente, os caras mandam muito bem. Depois disso, procurei muitos outros escritores russos e fiquei fascinada por todos.

    Anna Karienina é um dos livros que tá na minha lista faz muito tempo, mas infelizmente ainda não tenho o livro físico. Ler a sua resenha me empolgou e me incentivou ainda mais a comprá-lo. É como você mencionou, parece uma novela... Mas a forma como é escrito e desenvolvido os personagens, faz com que Tolstoi seja um escritor impecável. Ele escolhe as palavras sabiamente...

    Espero que você leia mais da literatura russa e compartilhe com a gente!

    Abraços e saudades

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  3. Olá tudo bem? Primeiro queria dizer que adorei sua postagem sobre o livro ele me parecesse ser uma leitura intensa rica em detalhes não sei se no momento estou preparada mais morro de vontade de conhecer as obras, beijos!

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  4. Olá,
    Adorei essa resenha, eu ja havia lido outras deste mesmo livro, porem, nenhuma foi tão detalhada e bem explicada quanto a sua. Uma coisa que queria falar tambem é que sou igual a você, eu tambem teria muito medo de iniciar a leitura e ficar por meses e meses estagnada sabe? Mas acredito que não se tornaria um dos meus favoritos, pois infelizmente eu não sou tão fã de novela das seis hahahahahah

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  5. Oie
    nossa que legal, estou para ler alguns classicos e esse realmente seria um interessante de se arriscar, gostei da muito da sua resenha pois está completa e passa muito bem sua opinião, com certeza fiquei curiosa

    beijos
    http://www.prismaliterario.com.br/

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  6. Finalmente fui vendida por esse livro. 2018 vai ser meu ano de Anna Karienina, que por sinal, aprendi a escrever com seu post que percebi que não é Anna KARENINA. Oops.

    www.paleseptember.com

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  7. Olá,
    Pra mim ele é daqueles livros que devem ser lidos, sabe? Eis que Anna se encontra aqui, mas deixa esclarecer um ponto, ele não merece ser lido por ser um clássico e sim por ser um excelente livro. Em alguns momentos não é uma leitura fácil, porém compensa o esforço com um excelente enredo sobre a vida e suas peculiaridades complexas, além das consequências de nossas decisões.

    Debyh
    Eu Insisto

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