06 março 2018

Stress can ruin everyday of your life

Tenho pensado muito sobre a morte. 

Não, eu não tenho tendências suicidas. Já tive, mas essa fase passou há um bom tempo e agora estou de boas com a minha existência. Só que me dei conta daquilo que todos nós sabemos, mas sobre o que ninguém gosta de falar: todos vamos morrer. Eu vou morrer. Minha mãe vai morrer. Meu pai vai morrer. Meu namorado vai morrer. O cachorro dos meus sobrinhos vai morrer. No final da história todos viraremos pó (cinzas, ossadas, como preferirem). E não tem nada de bonito nisso. 

Gostaria de poder dizer que o que tem me impedido de escrever - ou ler, porque parece que leio, leio, leio, mas não absorvo tanto quanto antes - é o início do semestre, os estudos e a total concentração nas matérias. Mas não. Tudo começou com a minha mãe ficando doente. Então ela ficou com um braço paralisado, mas okay, achamos que poderíamos resolver facilmente. Mas aí surgiu um diagnóstico de veia entupida e ela precisa de um cirurgião cardiovascular que não existe por aqui porque todas as emergências dos hospitais da região metropolitana decidiram fechar ao mesmo tempo e não há quem faça essa minicirurgia de forma alguma. 

Apesar de ser algo teoricamente simples de resolver, o sistema de saúde atual torna tudo impossível e a minha ansiedade tem andado em níveis estratosféricos desde então porque passo metade do dia me preocupando e a outra metade tentando esquecer da preocupação. 

Pra piorar, tudo isso começou quando eu estava num processo de desintoxicação de um tratamento hormonal que fiz (por conta das cólicas horríveis que tenho), mas que não deu muito certo, e eu mesma comecei a ficar doente porque desintoxicação + ansiedade + estresse + paranoia de eu estar doente ao mesmo tempo que minha mãe. Obviamente que estou bem agora, mas as paranoias continuam e é como se o tempo todo estivessem esperando pra gritar na minha mente que todos vamos morrer e não há nada que se possa fazer a respeito disso. 

O sentimento de impotência é grande. O de desespero então... 

Nesse meio tempo terminei de ver a 4ª temporada de Sherlock finalmente e em determinado momento a Molly vai examinar o Sherlock porque ele tá acabadaço e há todo um discurso sobre cuidar da saúde, manter hábitos melhores blablabla, ao que o Sherlock responde algo que achei genial e muito verdadeiro: "Estresse pode estragar todos os dias da sua vida. Morrer, apenas um.". Okay, sabemos que se trata de Sherlock Holmes falando e que apesar de toda a sua inteligência ele não é bem um modelo a ser seguido, mas isso é real demais.

Meu pai é a pessoa mais sensata que eu conheço. Ele não se mete na vida dos outros e só fala algo de que ele sabe, não fica dando opiniõezinhas por aí sem saber do que fala. Aí que esses dias, após mais uma crise de ansiedade minha, ele, a pessoa que sempre me apoiou e disse que tudo estava bem, disse que acha que tem algo de errado com a minha cabeça. Na hora fiquei "MAS COMO ASSIM QUE PAPO É ESSE ESTOU OFENDIDA", porém ele tem razão, né. Realmente tem algo de errado com a minha cabeça. Com a minha e com a de todo mundo.


Dia desses estava conversando com minha cunhada sobre questões de saúde mental e como a gente infelizmente não pode confiar em todo mundo pra falar sobre isso. Tem uma questão com uma pessoa do nosso círculo que tá sendo diagnosticada com um transtorno psicológico. Aí tem gente da família que descobriu e começou a zombar e realmente colocar a pessoa pra escanteio. Então eu realmente fiquei irritadíssima e disse que infelizmente não dá pra abrir essas questões psicológicas com qualquer um porque as pessoas ainda não se deram conta de que todo mundo se encaixa em algum transtorno.

Isso mesmo: todo mundo se encaixa em algum transtorno. Se todas as pessoas fizessem terapia, tenho certeza de que cada uma sairia com um diagnóstico de saúde mental e uma to-do-list que poderia incluir apenas hábitos mais saudáveis, como uma rotina de self-care, até mesmo uma receita de psicotrópicos.

Cada vez mais a vida nos exige autocontrole, habilidades mil, diplomas pra além da graduação e uma boa aparência (isso pra falar das exigências básicas). Lidar com trabalho, estudo, família e ainda se atrever a ter uma vida social não é tarefa fácil. É por isso que as pessoas andam tão doentes.

Claro que ficar pensando na morte de todo mundo que está à sua volta, incluindo você mesmo, não ajuda em nada - mas é isso o que acontece quando temos uma sociedade que não nos ensina a lidar com a morte, que não nos reserva um tempo pra entendê-la e que trata o assunto com um tabu imenso.

Faço parte de um grupo com mais algumas meninas que conheci na blogosfera, mas que viraram amigas-amigas mesmo. Numa conversa aleatória que estávamos tendo no nosso grupo do Cilada, uma delas disse uma coisa na qual eu nunca tinha pensado, mas que faz total sentido: o problema da nossa sociedade é que separamos saúde em física e mental, sendo que ela é só uma. Cês tão entendendo? SAÚDE MENTAL E FÍSICA SÃO A MESMA, SÓ EXISTE UMA SAÚDE PORQUE O CORPO É UM SÓ E O CÉREBRO FAZ PARTE DELE.


Eu não sei vocês, mas nunca havia pensado dessa maneira e, apesar de sempre ter me incomodado com o total descaso que existe quanto a saúde mental, tava seguindo a vida de boas porque pensei que é assim porque as pessoas são horríveis. Mas não é só isso: as pessoas são burras mesmo. Não vou entrar aqui em ideologias políticas, mas se o pessoal que governa este país se desse conta de que mente sã, corpo são, estaria todo mundo trabalhado na saúde mental, teria atendimento psicológico gratuito em todas as empresas e escolas e isso provavelmente diminuiria grande parte das doenças que as pessoas têm que são bem causadas por estresse e ansiedade (entre outras coisas).

Obviamente não dá pra pegar o exemplo do Sherlock, se atirar nas drogas e viver enlouquecidamente, mas é extremamente necessário tentar diminuir as causas do estresse ao máximo. Não adianta de nada fazer exames periódicos e constatar que o corpo físico está ótimo se a pessoa tiver o psicológico completamente ferrado porque mesmo que não surjam doenças psicossomáticas (muito mais comum do que se imagina), ainda assim a mente estressada (ansiosa, deprimida etc.) simplesmente impossibilita uma vida normal, fazendo com que não apenas o trabalho da pessoa seja afetado, mas também seu lazer e seu convívio em sociedade.

Como disse dona Sylvia Plath, musa eterna deste blog (e com a qual tenho uma identificação tão absurda que me assusta às vezes e me impede de ler seu livro de diários com mais afinco porque leio um pouco e saio marcando tudo):

Eu queria dizer pra ela que se apenas houvesse algo errado com o meu corpo seria bom, eu preferiria ter qualquer coisa errada com o meu corpo do que com a minha cabeça, mas a ideia parecia tão complexa e cansativa que eu não disse nada. Só me enterrei ainda mais pra baixo na cama.

A redoma de vidro é um dos meus livros preferidos justamente porque fala sobre todas essas questões sem ser surreal ou bonitinho ou num universo mágico. Ler ele é estar dentro da cabeça de Esther, uma jovem universitária que se percebe questionando as coisas ao seu redor, descobrindo sobre a morte, sobre a vida, sobre a solidão de ter de representar um papel em sociedade sendo que esse papel não é nem metade do que se é... E se descobrindo em depressão no meio do processo. Li ele duas vezes, mas isso já faz uns bons anos e desde então nunca mais tinha feito uma releitura. Até que esses dias, na sala de espera de um consultório médico tinha uma pilha de livros. Fui olhar os títulos e lá encontrei ele mesmo. Comecei a folheá-lo e o sentimento de não estar sozinha porque alguém já sentiu aquilo também e já passou por isso e descreveu como é foi tão arrebatador que em meia hora eu havia devorado oitenta páginas do livro.

E não é que eu esteja deprimida ou vá me matar como dona Sylvia fez. Não é isso. É só que, nesses últimos meses, não dava pra falar de outro assunto que não fosse livros ou séries porque se eu falasse sobre a minha vida teria de falar sobre toda essa vibe errada e isso eu não estava preparada pra fazer.

Tem sido dias estranhos com ligações em que eu, que odeio gritos, acabo gritando com as pessoas pra que elas entendam a gravidade das coisas e acabo chorando de pura tristeza quando meu namorado me mostra a matéria do bebê mamute morto há 40 mil anos que foi achado nas geleiras da Rússia.


E é isso. É uma fase bem complicada, com extra drama e muitas doses de sitcoms pra poder ser funcional no dia a dia, mas prosseguimos com (mais cabeça-dura do que) vigor. 

5 comentários:

  1. Mia!!!!!!!!!1 SOS

    Essas semanas eu também tenho pensado muito sobre a morte, sabe? Desde que minha mãe recebeu uns exames que apontaram que a tireoide dela está completamente desregulada parece que a vida tomou outro significado e tenho ficado cada vez mais próxima dela. Tem acontecido com você do universo mandar textos, fotos, etc sobre gente que morreu? Eu tô apavorada. Segundo meu namorado que é reikiano, ele disse que geralmente quando a gente tá pensando muito em morte é porque precisamos dar atenção e carinho para alguém do lado da gente e essa é a melhor forma.

    Tenta cuidar da sua cabeça porque só com ela boa você vai conseguir ajudar a sua mãe. Vai dar tudo certo! Vou orar por ela também <3

    Beijo :)

    http://pinkismycollor.wordpress.com

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  2. Você vai acreditar se eu disser que essas ideias sobre nossa impotência diante da morte tem tomado algumas horas do meu dia? Eu fico pensando na quantidade de doenças/doentes e na ineficácia do nosso sistema de saúde. Me dá um aperto no peito, uma sensação de extrema fragilidade. Mesmo lendo sobre tantas coisas que falam sobre a transitoriedade da vida e seus ciclos, não consigo me conformar que as pessoas simplesmente partem desse mundo deixando tudo.
    Tenho medo de perder quem amo, medo de perder quem sou... Acho que não ando bem da cabeça também...

    "...sobre a solidão de ter de representar um papel em sociedade sendo que esse papel não é nem metade do que se é..."

    Essa frase então, além da obrigatoriedade da morte, tenho a impressão de vivermos todos pela metade...

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  3. Assuntos como problemas psicológicos são tabu ou dificeis de falar num geral. Aliás, qualquer assunto negativo é complicado, mas quando sai da nossa zona de conforto do que é triste e pode ser compartilhado, acaba sendo mais difícil.

    Eu mesma anos atrás fui uma pessoa que não entendia porque as pessoas iam em psicólogo (considerando que na época nem sabia o que era analista e outros profissionais) e achava dinheiro jogado fora. Hoje em dia, faço análise e posso falar que ela me ajudou a dar um direcionamento imenso para minha vida. Às vezes você precisa estar no fundo do poço para procurar ajuda nos lugares mais "extremos". Espero que um dia qualquer tipo de transtorno ou o assunto de saúde mental seja falado como algo comum, não um tabu, como ainda é infelizmente visto no dia de hoje. Andamos muitos passos, mas ainda acho que somos poucas pessoas com uma noção disso. A grande maioria não tem o luxo de pagar por assistência e, infelizmente, não acredita que isso vá melhorar em nada. Espero que as coisas mudem, espero que as coisas fiquem bem por aí e espero também que a gente só avance.

    Se cuida. Beijo. :)

    www.paleseptember.com

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  4. Amiga, eu só quero te dar um abraçooooooooooooo
    Você já sabe minha opinião sobre esse assunto, mas amei seu post e queria sair lendo ele em voz alta por aí, mesmo sem ser um post feliz sobre as coisas da vida (afinal a vida não é só coisas felizes, némesmo). As pessoas não estão nem aí pro conceito de saúde mental e isso me deixa TÃO, TÃO fudida da cabeça. Não é nem pra dizer que todo mundo precisa de terapia, de medicamentos, etc - mas se pelo menos a gente tivesse uma cultura que incentivasse mais o selfcare, que fosse mais tolerante, que permitisse mais VÍNCULOS???????? Já pensou que louco? Penso que metade das misérias mentais que nos afligem não seriam tão terríveis assim ://
    Enquanto isso a gente vai tentando oferecer isso pras migas, já que o resto do mundo falha demais nessa tarefa de ser acolhedor. <33

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