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20 março 2018

Viajando na pequena Andarilha e conhecendo novas culturas

A longa viagem a um pequeno planeta hostil
Becky Chambers
352 páginas
Darkside
Ano de publicação: 2017 

Sobre o que é: a tripulação da nave de perfuração de buracos de minhoca Andarilha são pessoas muito diferentes. Sendo uma nave interespécies, eles precisam conviver com suas diferenças e aprender uns com os outros. Com a chegada da humana Rosemary e o desafio de fazer uma longa viagem até Hedra Ka, um novo planeta para onde eles terão de construir túneis de viagem, a tripulação da Andarilha percebe que a máxima é verdade: o importante não é o destino, mas sim a viagem.

Por que ele é bom? Eu não sou uma Grande Leitora de Ficção Científica. Não que eu não goste de sci-fi - até gosto bastante, inclusive -, mas prefiro o gênero em filmes e séries do que na literatura porque há certas coisas que me incomodam demais em escritos desse tipo. Uma delas é a quase total falta de personagens femininas agindo como pessoas normais e não como apenas uma ajudante sem cérebro do grande homem espertalhão da trama. O machismo presente em obras de sci-fi é algo que realmente me incomoda, infelizmente, então por mais que eu saiba que literatura é literatura há coisas pelas quais simplesmente não consigo passar por cima.

Não tive esse problema com A longa viagem a um pequeno planeta hostil. Isso porque se eu tivesse que definir esse livro em uma palavra, a palavra seria representatividade. E por que ele teria essa palavra como chave? Simples: porque o que a Becky Chambers fez foi criar uma história em que todo mundo é diferente e todo mundo importa. (Basicamente um Doctor Who, só que escrito por uma mulher e sem um Time Lord.)





Não existe personagem principal. A princípio, achei que a principal fosse Rosemary, a humana recém-chegada à nave Andarilha a cuja história somos apresentados primeiro. Mas então descobri que, na realidade, todo mundo ali é personagem principal porque a mensagem que a Becky quis passar a seus leitores é que cada um é protagonista de sua vida - e isso é muito bonito. Apesar de Rosemary ser humana, ela é uma das poucas de nossa espécie que aparecem na narrativa. Há diversas espécies de toda a Comunidade Galáctica navegando espaço afora.

Eu gostei dessa diversidade, gostei de imaginar como seriam diversas pessoas das diferentes espécies que aparecem no livro. Sissix, por exemplo, a piloto da Andarilha, é uma aandriskana cuja cultura é extremamente livre e que possui sérias dificuldades para entender por que os humanos são tão puritanos e cheios de medos de falar sobre sentimentos e de terem contato físico. É estranho ver o outro com o olhar estrangeiro, achando que nós é quem fazemos errado, mas também é interessante para se colocar no lugar do outro e pensar que todos somos estranhos, afinal de contas.

“Não julgue outras espécies pelas suas próprias normas sociais.”

Também é bacana como a Becky usa diversos termos científicos para falar de viagem no tempo, buracos de minhoca, física quântica e todas essas coisas que parecem muito longe da gente, mas que compõem o universo. A forma com que ela descreve conceitos complexos em poucos diálogos é um dos pontos altos do livro, que não faz com que um leitor leigo (eu) se sinta burro ao lê-lo (como acontece em outros livros de sci-fi por aí).

"Com um silêncio terrível, o céu se rasgou.
E os engoliu.
Rosemary olhou pela janela e percebeu que jamais tinha visto de fato a cor preta." 

É uma ficção científica sem machismo algum, sem aquelas babaquices do patriarcado, com muita representatividade pra todos os lados e super delicada. Fora que, eu não poderia deixar de mencionar, a edição que a Darkside fez pra esse livro é a coisa mais linda. As estrelas da capa brilham, a folha de guarda tem um céu todo estrelado também... Enfim, a equipe de design está de parabéns porque todo o visual do livro combina perfeitamente com a história e dá vontade de ficar olhando e olhando de novo de tão bem feito que é.

Por que ele é ruim? Senta que lá vem a história.
Ele não é ruim. Mesmo. Só que não é um livro pra mim.

A escrita da Becky Chambers é super delicada. E isso é bom, mas nem tanto - ao menos não pra mim. Toda essa delicadeza e esforço para mostrar bem o lado de cada uma das personagens me fez chegar ao ponto de enjoar da leitura e desejar que acabasse de uma vez. Isso porque não há um grande evento que mudará tudo, um plot que prende a atenção do leitor... Nada disso. É apenas o cotidiano dentro da nave Andarilha, o trabalho de fazer buracos de minhoca pelo espaço e uma grande lição de como respeitar e entender qualquer vida, seja lá de que espécie for. Não dá pra dizer que isso é ruim - especialmente em tempos como esses, em que a intolerância está em voga e tá todo mundo maluco. Mas não é o tipo de leitura que me cativa. Não que eu goste apenas de livros com ação e blablabla. Na verdade, nem gosto. Livros (ou filmes, séries etc.) de ação me deixam bem entediada. Só que livros em que todo mundo acaba sendo bonzinho porque VAMOS COMPREENDER OS MOTIVOS DAS PESSOAS, ATÉ MESMO DOS VILÕES são cansativos demais pra mim. Especialmente se forem de sci-fi.

Vou repetir aqui o que disse pra o meu namorado (que cursa Ciências Sociais e adora essas vibes de antropologia): quem ainda acredita que as pessoas são boas, apenas mal compreendidas, e realmente acha que entender suas culturas é a solução pra tudo vai gostar muito desse livro. Mas infelizmente eu não tenho essa opinião. Acho que as pessoas são boas e más ao mesmo tempo e não tendo a justificar suas ações porque sofreram traumas ou porque vieram de culturas diferentes etc. E essa vibe de amor infinito do livro me cansou demais, então não é que ele seja ruim, ele apenas não é pra mim.

Porém algo que realmente achei ruim no livro é a narrativa arrastada. Há um motivo pra eu não gostar de livros do Stephen King no geral (exceto por O iluminado, que é simplesmente maravilhoso): o tanto que ele demora pra desenvolver uma história. Com a Becky Chambers senti a mesma coisa (ao menos nesse livro, já que não li outra coisa dela e pode ser que seja uma coisa própria apenas desse e não de outros). Os capítulos eram arrastados demais, há diversas coisas completamente desnecessárias e foi bem exaustiva a leitura.

Você vai gostar se... curte um sci-fi, quer ler algo escrito por mulher, está ansiando por um livro que não lhe deixe maluca com personagens absurdos que transbordam machismo ou apenas gosta muito do espaço e se interessa por enredos bonitinhos que valorizam as pessoas.

Em um quote:

“O universo é aquilo que fazemos dele. Cabe a você decidir que papel quer desempenhar. E o que vejo diante de mim é uma mulher que sabe muito bem o que quer ser.”

2 comentários:

  1. Gostei muito desse livro, mais do que eu esperava. A leitura é um pouco cansativa mesmo, mas foi muito bom ler um sci-fi com uma mensagem mais positiva! Beijos

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  2. Jamais imaginaria que o livro tem essa vibe TÃO good-vibes, o tempo todo. Dei até uma desanimada de ler. :/

    Um abraço!

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