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05 abril 2018

Uma espiral de pensamentos girando, girando, girando...

Tartarugas até lá embaixo
John Green
272 páginas
Intrínseca
Ano de publicação: 2017 

Sobre o que é: Aza Holmes é uma adolescente de dezesseis anos que tem probleminhas. Em sua cabeça, tudo pode matá-la, especialmente o contato com pessoas porque ela encasquetou que uma bactéria vai invadir seu corpo, fazer um estrago em seu estômago e controlar seu cérebro. Obviamente Aza está exagerando, mas pra ela tudo aquilo é muito real: Aza tem TOC e não consegue controlar a espiral de pensamentos que invadem seu cérebro e a impedem de viver normalmente. Enquanto isso, o pai de um antigo amigo desapareceu e ela, junto de sua melhor amiga, Daisy, vão se envolver no mistério.

Nunca pensei que eu fosse favoritar um livro do John Green.
Favoritei um livro do John Green.





Já tinha lido algumas coisas dele (A culpa é das estrelas, obviamente, já que quase ninguém escapou do hype, e Cidades de papel, que até hoje é um dos livros que mais odeio) e nada me tocou de fato. Inclusive, tem um livro dele que é queridíssimo de todo mundo (Quem é você, Alasca?) que tá na minha estante faz uns cinco anos e eu nunca consegui terminar a leitura porque sempre empaco no mesmo trecho, sempre. Então posso facilmente afirmar que o João Verde não está na minha lista de autores preferidos.

Porém, assim que vi que ia sair um novo livro dele, fui conferir pra ver sobre o que seria - se ele ia repetir a fórmula de adolescente doente blablabla. E sim, de certa forma ele a repetiu. Mas esse livro tem algo que os outros não têm e isso eu percebi logo na primeira página, quando li o primeiro capítulo - já disponibilizado para o público pela editora: ele é real demais.

Okay, pode ser que não seja real para você, pessoa super estável, que está longe de ter quaisquer problemas psicológicos e que acha que questões adolescentes não são questões de verdade, que as grandes questões só surgem quando somos adultos. Bem, eu não penso assim. E não tenho problema algum em dizer que me identifiquei demais com uma personagem de dezesseis anos de um livro young adult porque, como já cansei de falar, literatura boa não é apenas aquela dos clássicos, cheia de momentos marcantes na história da humanidade, com personagens adultas e bem resolvidas que lutam contra um sistema opressor. Não. No final do dia, literatura boa é aquela que nos toca, que nos faz sentir algo diferente - seja reconhecimento, tristeza, impotência, paz... Os sentimentos são diversos e realmente acredito que devamos aceitá-los ao invés de racionalizar tudo o tempo todo e viver apenas na esfera do academicismo.

(Aliás, sempre bom dizer que nada contra o pessoal que estuda literatura, se dedica a dizer por que Dom Quixote é uma obra-prima e tal. Os estudos são importantes e sei que tem muita gente na Academia que é bacana. Só que elitismo literário não entra neste blog e, estudos à parte, leio de tudo e gosto do que me faz sentir. Simples assim.)

~a combinação não foi intencional: eu apenas gosto muito de laranjinha e tenho usado bastante esse suéter, hehe~

Aza tem TOC. Achei interessante que o João Verde tenha escrito uma personagem com TOC que sai do clichê pessoa-que-precisa-organizar-tudo-o-tempo-todo porque a realidade do transtorno vai muito além da pessoa da internet que acha que sofre disso porque é virginiana e não aguenta ver a casa suja. (Ninguém deveria aguentar ver a casa suja, gente. Independente de signo, viver na sujeira é problemático demais e limpeza não tem a ver com TOC ou com sol em virgem, mas com o mínimo pra ter uma condição decente de vida, okay?) Provavelmente todo mundo sabe, mas não custa dizer: TOC é Transtorno Obsessivo Compulsivo e as pessoas que o possuem sofrem demais porque a cabeça delas se torna uma prisão infernal. A questão do transtorno é que ele é muito mais do que a mania de organização, de limpeza, de escrever tudo com caligrafia bonita... Ele realmente aprisiona a pessoa dentro de sua própria mente numa espiral de pensamentos atormentadores quase constantes. São pensamentos obsessivos, seja lá sobre o que forem.

"O verdadeiro terror não é ter medo, é não ter escolha senão senti-lo.” 

Não é à toa que tanta gente se relacionou com esse livro. Vivemos numa sociedade hipermoderna (como já diria Lipovetsky, TE DEDICO, LIPOVETSKY, você colocou em palavras tudo o que eu penso sobre a sociedade atual, mas que não sabia expressar porque vinte e poucos aninhos e pouca base teórica, risos) cujo grande problema final é um bando de pessoas com ansiedade, depressão, TOC, entre outros transtornos da mente, e que depende de psicotrópicos para agir normalmente no dia a dia, para não ter um surto e não ser invadido por pensamentos terríveis e incapacitantes. É por isso que o João Verde acertou em cheio ao escrever a Aza, apenas uma adolescente vivendo seus dramas de adolescente, mas com um background muito horrível e real de transtorno psicológico.

Além disso, há uma trama bem em segundo plano, mas que também é importante na narrativa, que trata de abandono paterno e deixa escancarado que nem gente rica fica ilesa de problemas familiares. Tanto esse tema quanto o do transtorno psicológico são tão comuns que acho bem difícil alguém ler esse livro e não se identificar com um ou com outro, então mais uma vez o Joãozinho acertou em cheio.

Eu amei demais todas as personagens, amei as referências a Star Wars (saga da qual me descobri fã após anos de birra não querendo ver porque só conhecia gente chata que era fã; sim, eu sou esse tipo de pessoa, mas decidi dar uma chance e agora só tô pelo filme do Han Solo, o grande homão deste saite ♥), o fato de que a melhor amiga da Aza, a Daisy, escreve várias fanfics de SW e realmente se dedica a isso só tornou o livro ainda mais identificável - ao menos dentro do meu universo de meninas que escrevem fanfics sob pseudônimos de histórias que amaram tanto que simplesmente sabem que precisam continuar, mesmo que não oficialmente.

Uma coisa que achei bem interessante e que me fez gostar mais ainda do livro, mas que não sei se foi intencional, é que a narrativa é bem parecida com a de A redoma de vidro, da Sylvia Plath, outro livro que é favorito na minha vida porque é real demais. Talvez pela narração ser em primeira pessoa e na voz de uma menina com esse turbilhão de pensamentos aterrorizantes, talvez porque seja uma espécie de coming-of-age, o fato é que Aza e Esther Greenwood são bem parecidas, com a diferença de uma viver nos dias atuais, com acesso a consultas com psiquiatra, medicação e sem todo aquele estigma de louca, enquanto a outra vive nos anos 50 e era tratada como uma histérica maluca.

Enquanto a Esther, de A redoma de vidro, diz que:

"Eu queria dizer pra ela que se apenas houvesse algo errado com o meu corpo seria bom, eu preferiria ter qualquer coisa errada com o meu corpo do que com a minha cabeça, mas a ideia parecia tão complexa e cansativa que eu não disse nada. Só me enterrei ainda mais pra baixo na cama." 

A Aza, de Tartarugas fala:

“[…] e enquanto isso eu só pensava que, se metade das células no meu corpo não pertence ao meu corpo, isso não coloca em xeque todo o conceito de eu como pronome singular e, mais ainda, a noção do indivíduo como autor do próprio destino? Eu me sentia caindo, penetrando cada vez mais naquele buraco de minhoca recorrente, até me ver transportada de vez para fora da White River High School, para um lugar não sensorial que só as pessoas realmente malucas conseguem alcançar.” 

São temas universais, embora várias décadas separem um livro do outro, e por isso mesmo as situações, por mais diferentes que sejam, são semelhantes. O bom é que o John Green não usou o mesmo tom extremamente depressivo no livro, porque apesar de eu amar a escrita da Sylvia Plath teria sido bem difícil ler algo pesado agora - ainda mais num young adult.

Enfim, é um livro lindo, super atual, não tenho queixa alguma mesmo e estou surpresa demais por ter favoritado algo do John Green, mas deu pra ver que ele realmente colocou muito de si nessa história e ela vale a pena - mesmo que não mude a sua vida, certamente pode te fazer olhar pra o outro de forma mais compreensiva.

Em um quote:

“Eu estava começando a entender que a vida é uma história que contam sobre nós, não uma história que escolhemos contar.” 

5 comentários:

  1. Quem diria que você me convenceria a ler um do John Green depois de todo o ódio que senti por A Culpa é das Estrelas? <3

    Limonada (antigo Novembro Inconstante)

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  2. A principio parece ser so uma historia de adolescente, ai parece ter algo mais pra contar... Vou lhe ser sincera, me apaixonei pelo livro so de ler sua resenha... rsrs
    bjo

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  3. Olá, amo sua resenha. Que bom saber que conseguiu gostar tanto desse livro novo do John. Fico mais animada para ler ele, que traz uma temática realmente muito importante.

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  4. Olá,
    Também li os dois livros dele que você citou, e sinceramente eu acho que ele segue uma formula sim. Ainda não li este (não pretendo, saturei um pouco do John rs) mas achei interessante os pontos positivos que você mencionou do livro. Não faz muito meu gênero, mas os fãs devem gostar.

    Debyh
    Eu Insisto

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  5. Olá, tudo bem?

    Eu já li diversas resenhas sobre esse livro e apesar de não fazer muito o meu estilo literário parece ser de fato uma boa leitura, acho essa capa bonita e parabéns pela resenha!
    Abraço!

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