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11 junho 2018

Interferências malucas e barulhentas

Eu tenho um medo na vida. 
(Eu tenho muitos medos na vida, a quem estou enganando? Mas tenho um medo que é um Grande Medo, que certamente entra pra listinha de Grandes Medos com letra maiúscula.) Eu não tenho medo de aranha. Não tenho medo de barata. Não tenho medo de assalto. Não tenho medo de ser atropelada. Não tenho medo de filme de terror. Mas tenho um medo que me acompanha desde criança: telepatia. 

Não sei como isso começou. Provavelmente com algum filme da infância cujo nome jamais vou lembrar (algo me diz que envolvia as gêmeas Olsen, mas tudo envolvia as gêmeas Olsen na época, então é difícil dizer), mas o fato é que o medo é real. Não me dei conta de cara, foi aos poucos. Um dia estava jantando em família e pensei em alguma bobagem totalmente não relacionada e logo reprimi o pensamento porque alguém pode estar me ouvindo. Algo totalmente esquizofrênico, se a gente for parar pra pensar. Mas mesmo não fazendo sentido algum, isso foi crescendo, crescendo, crescendo, e com o passar dos anos eu acabei construindo defesas psíquicas (como ficar cantando mentalmente o tempo inteiro, SEMPRE tem música aleatória na minha cabeça) pra o caso de alguém à minha volta ser telepata. 

COMPLETAMENTE MALUCA, eu sei. 

Mas o fato é que esse é um daqueles medos malucos, irracionais e enraizados na infância que estão lá e não saem de forma alguma e com o qual a gente só convive, nem questiona mais porque já acostumou. E tudo bem. Tudo bem ter um medo irracional e maluco. Isso é parte da vida e a gente lida com isso numa boa. O problema é quando o medo se torna algo real. E é isso o que acontece num livrinho maravilhoso que li.  

Interferências
Connie Willis
464 páginas
Editora Suma
Ano de publicação: 2018 

Sobre o que é: Em um futuro não muito distante, um simples procedimento cirúrgico é capaz de aumentar a empatia entre os casais, e ele está cada vez mais na moda. Por isso, Briddey Flannigan fica contente quando seu namorado, Trent, sugere que eles façam a cirurgia antes de se casarem — a ideia é que eles desfrutem de uma conexão emocional ainda maior, e que o relacionamento fique ainda mais completo. Bem, essa é a ideia. Mas as coisas acabam não acontecendo como o planejado: Briddey acaba se conectando com outra pessoa, totalmente inesperada. Conforme a situação vai saindo do controle, Briddey percebe que nem sempre muita informação é o melhor, e que o amor — e a comunicação — são bem mais complicados do que ela esperava. 


Eu até ia escrever outra sinopse, mas essa tá tão correta que vou deixar assim. 
Basicamente a Briddey e o Trent trabalham na Commspan, essa empresa de tecnologia da comunicação que é concorrente da Apple. Enquanto todo mundo está frenético para bolar um celular que se destaque no mercado e seja melhor que o novo iPhone, Trent, namorado da Briddey, pede a ela para fazer um EED - um procedimento que consiste em cortar a cabeça da pessoa pra mexer com seu cérebro e tudo para que ela possa sentir o que o parceiro sente. 

Obviamente que isso só podia dar errado, mesmo que desse certo. Afinal de contas, que coisa infernal sentir os sentimentos alheios. Se a gente mal consegue lidar com os nossos próprios, imagina sentir o que os outros sentem. O mundo completamente honesto é uma distopia fantasiada de utopia feita para acabar com nossos sonhos. E é com isso que a Briddey tem que lidar, mas de uma forma completamente pior. O que era pra ser apenas uma forma de sentir o que o namorado estava sentindo acaba se tornando um problema gigantesco quando ela começa a ouvir a voz de outro homem falando com ela.

É aí que a história vai realmente se desenvolver. Briddey, obviamente, pensa que está ficando louca, mas infelizmente ela agora é telepata e terá de lidar com a multidão de vozes gritando em sua cabeça e com um conhecimento que ela jamais gostaria de ter obtido. Além de todo esse terror de ser invadida por mentes alheias e de não conseguir nem ao menos ir ao teatro sem ter um ataque de pânico e acabar escondida no banheiro, completamente apavorada, ela ainda tem de lidar com grandes mudanças e aceitar a ajuda de uma pessoa muito improvável e estranha.

Eu não gosto de romances. Mesmo. Leio de tudo, mas não consigo gostar de historinhas de amor porque aaaaaaaaaaaaaah quanta melosidaaaaaaaaade. Só que quando a Connie Willis decide colocar um romance no meio da história, ela faz isso de uma forma maravilhosa e tão natural que a pessoa nem sente que tá lendo uma historinha de amor. Claro que o livro não é uma história de amor. Veja bem que esse realmente não é o plot principal, mas o casalzinho está lá e eu torci muito por eles e fiquei visualizando os dois como o Benedict Cumberbatch e a Karen Gillan. (Inclusive, façam uma adaptação disso porque NECESSÁRIO - e de preferência com esses dois contracenando; seria perfeito.)

~montagem tosca só para ilustrar esse belo casal da ficção: Bene seria o C. B. porque claramente C. B. é um cara mais velho, estranho e de cabelos desgrenhados e voz grave; já a Karen seria a Briddey porque ruivíssima, bem vestida, com cara de desespero, mas que ao mesmo tempo te despreza e pronta pra sair correndo a qualquer momento - apesar de eu ter pavor da Amy Pond, a Karen de Selfie é a escolhida; JÁ QUERO ISSO NOS CINEMAS PFVR~

Além dos dois personagens centrais, tem também a sobrinha da Briddey, Maeve, que é a coisa mais divertida da história toda. As gargalhadas que eu dava com ela fizeram o pessoal de casa ir até o meu quarto me perguntar se tava tudo bem porque eu não parava de rir. A menina é uma hacker mirim e faz parte da família mais superprotetora da literatura (não vou falar que é a mais superprotetora que já vi porque OLÁ, FAMÍLIA até os meus vinte anos eu não conseguia dar um passo sem ter antes de fazer toda uma explicação, então entendo bem o desespero da Briddey porque ter uma família próxima demais é uma questão real).

Ano passado eu já havia lido um outro livro da Connie, O Livro do Juízo Final, que é uma das melhores coisas que já li - de verdade, todo mundo que gosta de uma vibe histórica com viagem no tempo deveria ler aquele livro. Ler Interferências só me fez confirmar que quero ler tudo o que essa mulher já escreveu, pois ela arrasa demais no sci-fi. ♥

A única coisa que me fez passar raiva não foi culpa da autora ou da história, mas do Correios. QUE QUE CUSTA TER CUIDADO?????



Eu cuido tanto dos meus livros... Tem livro meu que tá na estante há anos e parece ter sido comprado hoje porque eu sou uma pessoa cuidadosa. Aí o pessoal do Correios faz, sei lá como, um buraco no pacote, buraco esse em que lá se foi um pedaço da lombada. Assim fica difícil de defender. 


Eu não queria que esse livro acabasse, mas ao mesmo tempo queria muito saber que diabos ia acontecer (aliás: melhor final, haha), então o devorei em três dias e só não foi menos do que isso porque eu enrolei um pouco por medo de chegar ao final e ter de me despedir daquela história maravilhosa - como se eu não pudesse reler o livro algum dia, né. 

Sci-fi escrito por mulher é uma coisa maravilhosa porque você lê, se diverte nas pirações e não passa raiva. Só recomendo. 

Em um quote:  
“Só que algumas pessoas acabam conectadas demais, entende, principalmente quando se trata de relacionamentos. Relacionamentos precisam de menos comunicação, e não de mais.”


~este livro foi cedido em parceria com a editora~

5 comentários:

  1. "O mundo completamente honesto é uma distopia fantasiada de utopia feita para acabar com nossos sonhos." - resumiu um sentimento que sempre tive e nunca soube botar pra fora!

    e a citação é um tapa na minha cara kkkk

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  2. eu vi a karen gillan como briddey também, mas vi uma vibe mais milo vintemilho no C.B., não sei por que... acho que o cabelo bagunçado HAHAHAHA. eu quis DEMAIS ler esse livro porque tô há meses escrevendo uma história que envolve ~telepatia~ e queria ver alguma outra pegada nesse assunto e a melhor coisa foi ser uma escritora mulher e um romancinho. amei demais esse livro, na mesma vibe: não quero que acabe, mas quero saber como termina hahaha

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    1. o milo é bonito demais pra ser o C.B. porque na minha cabeça C.B. é um alien desajeitado, porém charmoso, ousseje = bene hahahaha COMASSIM HISTÓRIA COM TELEPATIA QUERO LEEEEEEEEEEEEEEEEEEEER

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  3. ai meudeus nervosa porque agora quero ganhar o sorteio desse livro HAHAHA ♥ curiosíssima!

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