Escrever pra quê?

Eu não tenho mais vontade de escrever.
Ainda assim, parece que essa é a única forma de exorcizar sentimentos: dando-os forma através de letras, pontuações, entrelinhas. Falar nunca resolveu, escrever, sim. Não resolve, mas alivia. Alivia porque o sentimento não mais me pertence, mas torna-se parte de algo maior, de uma história, de um conto, de uma crônica, de um poema. Parte da vida de quem o lê, de quem o despreza, de quem se identifica. Parte de algo. E todos sabemos que carregar um fardo é muito mais tranquilo se tivermos alguém com quem dividi-lo.

Por isso escrevi por tantos anos: nunca tive alguém com quem dividir meus fardos.
Então alguém surgiu. Mas esse mesmo alguém está começando a ver o que todos já haviam visto: meus defeitos que haviam sido nublados pelas estonteantes qualidades. Defeitos que fazem mal. Que me tornam quase deformada. Que não constroem nada além de muralhas ao meu redor.

Então torno a escrever.
Porque é necessário. Porque não posso carregar tantos fardos sozinha. Porque talvez eu esteja para sempre sozinha. Sozinha-acompanhada por outra solidão que não é minha. Será que duas solidões um dia se anularão? Eis a questão.