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20 novembro 2018

Agora que já escrevi a crítica do filme para o Valkirias - e consegui, inclusive, deixá-la o mais imparcial possível, apesar da dificuldade de fazer isso sendo fã da banda -, posso vir aqui e escrever de forma emocional e sem restrições sobre a experiência que é Bohemian Rhapsody


Faz onze anos que espero por esse filme, desde a primeira vez que, em um fórum de uma comunidade do orkut (sdds orkut), ouvi falar na possibilidade de ele ser feito. Desde então, sofri com as escolhas de elenco, aquela péssima decisão de colocar o Sacha Baron Cohen para interpretar Freddie Mercury, o desgaste ocorrido durante as filmagens e suspensão das mesmas (ainda bem, pois essa escolha havia sido péssima). Cheguei a pensar que não haveria mais filme algum e que meu sonho de ver a história do Freddie na telona não se concretizaria. Aí surgiu o abençoado Rami Malek para dar corpo ao maior vocalista do século XX e desde então parte dos meus dias foram contar o tempo restante para assistir à cinebiografia. 

Há duas semanas, quando finalmente fui ao cinema para assistir Bohemian Rhapsody, quase não me contive de emoção. A história do Freddie tem sido a minha grande inspiração desde que eu era uma adolescentezinha que passava seus dias ouvindo música e cantando numa banda (sdds cantar numa banda) e que total acreditava que seu futuro era ser uma rockstar. Obviamente meu futuro acabou indo por outros caminhos que jamais sonhei trilhar - quem diria que eu enveredaria para a literatura e deixaria a música de lado? Certamente o pessoal que me conheceu naquela época riria dessa ideia, pois eu era 100% a doida do rock - não que eu tenha deixado de ser, mas não saio mais por aí cantando; o que é uma pena, pra falar a verdade. 

Ver o jovem e franzino Freddie dos anos 70 tomar forma, interpretado pelo Rami, naquela sessão me fez pensar em diversas coisas, mas especialmente em como é difícil nos tornarmos quem somos e termos a coragem de fazê-lo. Não havia nada que contribuísse para que ele um dia se tornasse um dos maiores cantores da história além do seu talento: ele estava longe de ser rico, trabalhava aqui e ali com coisas aleatórias, como CARREGANDO CAIXAS, era imigrante, vindo da África, sua família era religiosa e conservadora, e não é como se apoiassem o sonho do rapaz de ser um artista. Ele era apenas um jovem universitário cursando design gráfico que até mandava currículos por aí, mas comemorava ao saber que não havia conseguido nenhum emprego, assim poderia se dedicar à música. A vida de Freddie foi bem difícil e ele passou por diversos apertos, mas nunca desistiu de ser quem sabia que havia nascido para ser. E isso é lindo. 

Porém, ver isso me fez pensar: o que diabos estou fazendo para ir atrás dos meus sonhos? Sim, estou na faculdade que sempre quis. Sim, estou escrevendo e já tenho até um certo pequeno reconhecimento por minha produção. Mas eu realmente estou no caminho para ser a pessoa que eu nasci para ser? Acho que ainda há um bom percurso a ser trilhado até lá. 

Há alguns meses, li o famoso livro da Amanda Palmer, que até rendeu um textão na hora, e fiquei com a mesma sensação de não estar fazendo o suficiente para me tornar aquilo que deveria ser. Quer dizer, eu passo basicamente todas as horas do meu dia Fazendo Coisas e Produzindo Algum Tipo de Arte, mas parece que não é o bastante. É uma sensação bem inútil essa, porém é real. Especialmente quando se tem contato com obras como BoRhap e o livro da Amandita e se começa a questionar por que não se pode ser tão cara dura quanto eles e simplesmente MOSTRAR A SUA ARTE sem grandes preocupações de uma possível rejeição.

São questões.

Mas voltando a falar do filme:

O ELENCO

Rami Malek, obviamente, está perfeito, como todos sabemos. É bem verdade que poderiam ter colocado uma lente castanha no menino, já que ele tem lindos olhos verdes, mas isso não é um problema visto que ele ENCARNA o Freddie. É realmente muito incrível a transformação que acontece em cena. Especialmente nos anos 70, quando aparece o Freddie garoto todo serelepe com aquelas roupas de seda e aquele couro todo e a maquiagem kajal (inclusive, sua melhor fase; bigode não fica bonito em NINGUÉM).  


Uma coisa que particularmente amei e achei mega importante é que eles escolheram um ator egípcio para interpretá-lo. Freddie nasceu na Tanzânia, que fica na África Oriental, e suas feições estão longe de ser europeias. Tive um medo real de que fizessem um whitewashing porque por mais que ele fosse de pele clara, sua família era uma mescla de persas e indianos, então não há como simplesmente pegar qualquer cara com um maxilar grande e um nariz comprido e achar que está tudo bem.

Agora, na sessão "gente branquela" do filme, MEU DEUS DO CÉU, GWILYN LEE E JOSEPH MAZZELLO SÃO BRIAN E DEACON! É sério, eu não sei como acharam esses caras, mas desconfio fortemente que talvez eles sejam filhos perdidos de ambos, resultados de trocentas turnês regadas a álcool e outras coisitas mais, porque não é possível tamanha semelhança. (Sim, sabemos que é possível, claro, mas que dois caras praticamente idênticos aos membros do Queen sejam ATORES e tenham idade adequada para interpretá-los é algo que me faz pensar.)

Brian e Gwilyn são a mesma pessoa

Até a Anita Dobson, esposa do Brian, falou que achou o rapaz totalmente irresistível HAHAHAHA ♥

Agora, apesar da baita semelhança entre Gwilym e Brian, o realmente espantoso aqui é Joseph como John Deacon. Quando o elenco do filme foi anunciado, cada vez que eu me deparava com uma foto do Joseph, pensava que era o Deacon porque eles são simplesmente IDÊNTICOS.

E não sou só eu que penso isso:

Olhem bem pra isto e vejam a semelhança:

MESMA PESSOA!!!!!

(Inclusive, num assunto não relacionado, agora que me dei conta: o Deacon total parece uma das irmãs Romanov.) Amei demais que além de eles terem a mesma face, o detalhe do amassadinho no nariz do Deacon também está presente na interpretação do Joseph. Total coisa de fã, eu sei, mas é bacana ver isso.

QUEENIE GIRL


Eu tinha doze anos a primeira vez que ouvi Bohemian Rhapsody. Estava em casa, de licença médica porque ninguém sabia ao certo o que havia comigo e eu estava desmaiando direto na escola. Meu pai, pra me animar, trouxe diversos DVDs, entre eles aqueles de coletâneas de clipes antigos - precisamos lembrar que essa é uma época em que o advento da internet ainda não fazia parte da minha vida e basicamente tudo o que eu fazia era ler e ver tevê. Num deles, havia um show, que hoje identifico como sendo o Queen Elizabeth Diamond Jubilee de 2002 em que diversos artistas se apresentaram para homenagear a rainha. Entre eles, estava o Queen em sua formação restante: Brian, Roger e umas pessoas aleatórias ajudando nos vocais. Lembro até hoje da sensação que tive ao ouvir os primeiros acordes de BoRhap: soube, naquele momento, que aquela era a música da minha vida. Pode parecer exagero ou drama adolescente, mas foi exatamente isso que senti e, doze anos depois, ainda é verdade. 

Algum tempo mais tarde, já sabendo quem era o Queen e amando Freddie Mercury, soube que talvez seria feito um filme sobre a vida dele e fiquei completamente doida. É claro que o filme não poderia ter outro nome senão Bohemian Rhapsody, talvez a obra na qual Freddie mais se revelou. Ver esse filme e essa linda história sendo conhecida por todos é algo que me deixa feliz demais. São muitas as emoções e poucas as palavras para descrever esse sentimento. Nunca fui fã de nada e nem de ninguém, mas sou fã de um cara que morreu antes de eu nascer. Nunca poderei conhecê-lo, mas é realmente ótimo ver que o mundo está redescobrindo a história do rapaz franzino que conseguiu se tornar quem era.

Pretendo fazer um post com as minhas músicas preferidas do Queen, mas por enquanto fiquem com esta (e sigam o Brian May no instagram, ele é o senhorzinho mais fofo que existe!):

17 outubro 2018

Histórias de terror são as minhas favoritas desde que eu era criança. Comecei a 1ª série já alfabetizada e pegando livrinhos na biblioteca. Um dos primeiros que peguei foi o Contos de Assombrações, uma coletânea com diversos contos de terror da América Latina. Lembro que fiquei fascinada por eles e suas histórias me marcaram muito, tanto que posso recontá-las até hoje, mesmo nunca tendo relido o livro. A minha preferida era A Mulata de Córdoba, uma mulher lindíssima que, por ser tão bonita e não envelhecer, foi presa e condenada à morte, acusada de bruxaria. Nada de novo sob o céu, como fiquei sabendo tempos depois, infelizmente. Porém, o conto continua lindo e misterioso e foi um dos motivos para o meu amor pelo terror. 


A Companhia das Letras, minha editora preferida e parceira aqui no bloguito, está lançando no Brasil, pelo selo Suma, a obra da Shirley Jackson, notória escritora de terror dos EUA que, por algum motivo, não é muito conhecida por aqui. Mas total deveria ser, porque li apenas um livro dela até agora e já quero ler tudo o que ela escreveu. O lido da vez foi A assombração da casa da colina, livro que virou série da Netflix (com o título um pouquinho modificado de A maldição da residência Hill) e que me deixou nervosa em muitas páginas.


The haunting of Hill House
Shirley Jackson
240 páginas
Suma
Ano de publicação: 2018
Encontre na Amazon 

Sobre o que é: Sozinha no mundo, Eleanor fica encantada ao receber uma carta do dr. Montague convidando-a para passar um tempo na Casa da Colina, um local conhecido por suas manifestações fantasmagóricas. O mesmo convite é feito a Theodora, uma alma artística e “sensitiva”, e a Luke, o herdeiro da mansão. Mas o que começa como uma exploração bem-humorada de um mito inocente se transforma em uma viagem para os piores pesadelos de seus moradores. Com o tempo, fica cada vez mais claro que a vida, e a sanidade, de todos está em risco. 

O dr. Montague é um daqueles típicos senhorzinhos de filmes dos anos 60 que tiveram uma experiência com o sobrenatural na juventude e agora passam a vida atrás de qualquer coisa que possa se assemelhar àquilo, mas acaba se perdendo na ânsia de fazer uma grande descoberta científica sobre o Grande Além. Numa dessas, ele encontra a Casa da Colina (Hill House) e, após perceber que ninguém da cidade sequer falava sobre a casa, pois coisas ruins aconteceram por lá, ele se decidiu a passar um verão naquele local. Pra isso, entrou em contato com várias pessoas que supostamente haviam passado por experiências paranormais para aflorar melhor o sobrenatural na casa.

No início da leitura, pensei que a narrativa se alternaria entre os quatro personagens principais: dr. Montague, Eleanor, Theodora e Luke. No entanto, conforme fui lendo, percebi que a personagem principal, de fato, é Eleanor.

Todos ali são interessantes e perturbadinhos em certa medida, mas Eleanor realmente leva aquilo a sério. Após passar anos cuidando de uma mãe doente que lhe atormentava, ela foi morar com a irmã e o cunhado, que a tratam como criança porque ela dedicou os primeiros anos de sua vida adulta a cuidar da mãe ao invés de constituir família. São os anos 1960 e ser uma mulher solteira aos trinta e poucos não era algo visto com bons olhos. Quando ela recebe a carta do dr. Montague a convidando a passar o verão na Casa da Colina, vê naquilo não apenas uma caça a fantasmas, mas sim uma fuga de sua realidade e uma possibilidade de uma nova vida. "Jornadas sempre terminam com o encontro de amantes."

Quando criança ela havia tido uma experiência de telecinese que chegou a ser noticiada, mas desde então nada tinha se manifestado. Porém, isso estava para mudar e me atrevo a dizer que de todas as pessoas supostamente sensitivas daquela casa, Eleanor era a única que de fato possuía uma conexão com o Grande Além.

Sua chegada na Casa da Colina só pode ser descrita como repleta de tormentos. Após passar pelo povoado que antecede as grandes colinas além e travar um diálogo muito estranho numa lancheria, Eleanor finalmente chega ao seu destino e a sensação que o local lhe passa é algo que faz o próprio leitor se sentir profundamente incomodado. A casa é um tipo de mansão vitoriana, porém totalmente fora de proporção. Ela foi construída de forma a causar mal estar em quem olhá-la ou estiver perto dela, pois é literalmente torta. Nada faz sentido ali: as portas se fecham sozinhas, é tudo escuro e com cheiro de mofo, a decoração é em tons escuros e sombrios e ninguém pára muito tempo ali dentro sem ter um ataque de nervos.

O dr. Montague possui um método científico para seus estudos da casa, mas não há método que resista às coisas que ali acontecem (especialmente naquele capítulo que ocorre com a Eleanor e a Theo; se você leu o livro tenho certeza de que sabe do que estou falando porque aquela é uma das passagens mais tensas que já li).

É interessante observarmos que essa seria uma história de terror qualquer não fosse pela narrativa. Não é à toa que Shirley Jackson foi apelidada de Virginia Werewoolf pelo pessoal de sua época, já que seu estilo narrativo, com fluxo de consciência, é parecido com o da maravilhosa escritora Virginia Woolf, ao passo que Werewoolf significa Lobisomem (ou seja, uma Virginia Woolf do horror). Sua escrita é maravilhosa. Há várias cenas verdadeiramente oníricas em que não sabemos se o que está acontecendo é real ou se está apenas no plano das ideias. E é justamente esta a sensação de se estar vivendo uma história de terror: o limiar entre a loucura e a sanidade precisa ser tênue, e Shirley conseguiu esse efeito com maestria.

Em um quote: 
"Não entendo." Theodora largou o lápis num gesto exasperado. "Você sempre vai aonde não te querem?"
Eleanor sorriu placidamente. "Nunca me quiseram em lugar nenhum", ela explicou. 

ATENÇÃO 
Tá rolando lá na página do blog um sorteio desse livro maravilhoso! Clique aqui e participe ♥ 
12 outubro 2018

Já que hoje é dia das quiança, é alentador lembrar que essa cara fechada e semblante de quem está te julgando muito não veio da adolescência, e sim de nascença mesmo. 

~8 meses, batendo palminha e te julgando muito~


 ~1 mês e com a maior cara de crítica literária pedante~

É por esse tipo de coisa que namorado diz que é difícil entender o que eu tô sentindo, já que sou basicamente o Holt no quesito expressão facial. 

04 outubro 2018

Assim como a Manu, eu também consegui falhar em meu próprio projeto. A ideia, dada pela Natália, é fotografar tematicamente durante o mês e postar no blog depois. Eu até fotografei, mas ando tão ATORDOADA com a situação política atual que nem tenho conseguido escrever direito, risos nervosos. No entanto, cá estamos com as fotinhos. 

O tema da vez é fotos que ilustram trechos de livros. Eu amei esse tema pois crazy book lady, porém é bem complicado achar fotos que se encaixem a trechos literários sem parecer legenda ruim de álbum de orkut. Como fiz um trabalho pra cadeira de Fotografia, aproveitei as fotos pra o projetinho e legendei todas com trechos do meu livro preferido, A insustentável leveza do ser. Se a minha vida fosse um livro, seria esse. (Apesar de eu total preferir viver no universo de Harry Potter, no entanto a realidade é bem diferente, fazer o quê.) Não poderia ter escolhido outro.

As fotos foram tiradas na Catedral de Novo Hamburgo - RS. E eu sou uma péssima fotógrafa, já peço desculpas de antemão pelos ângulos errados. 

"De um lado ficam as casas e, atrás das janelas do andar térreo, que parecem vitrines de uma loja, podem-se perceber minúsculos quartos de putas. Elas estão vestidas de roupas de baixo, sentadas perto do vidro, em poltronas acolchoadas de almofadas. Parecem gatos entediados. O outro lado da rua é ocupado por uma gigantesca catedral gótica do século XIV. Entre o mundo das putas e o mundo de Deus, como um rio que separa dois reinos, flutua um acre odor de urina.

Apesar de ser um trecho forte, tive de colocá-lo porque foi exatamente dele que lembrei quando estava chegando na catedral. Ela é toda opulenta, gótica e misteriosa, cheia de obras de arte e riqueza. Enquanto isso, na frente, há um cheiro fortíssimo de mijo seco e pessoas maltrapilhas. Isso tudo me dá uma vontade de chorar porque de um lado tem riqueza e conforto (apesar de eu não gostar particularmente de igrejas), do outro tem a miséria, e aparentemente eles não podem se misturar. 


"O que encontrara inesperadamente nessa igreja não fora Deus, mas a beleza. Ao mesmo tempo, sabia que essa igreja e essas litanias não eram belas em si mesmas, que a beleza delas vinha da associação com o Canteiro da juventude onde passava seus dias mergulhada na algazarra das músicas. A missa era bela por ter surgido súbita e clandestinamente como um mundo traído."

Essa é a minha foto preferida porque mostra o sofrimento da estátua e toda a beleza que o artista conseguiu imprimir ao esculpi-la. Eu nunca me senti bem em igrejas. A ideia de estátuas com expressões de agonia sempre me pareceu mórbida e nunca vi sentido na culpa católica ou na absolvição de tudo apenas por ir à igreja uma vez por semana. Mas sempre achei lindas as grandes catedrais, com seus vitrais, suas tapeçarias e pinturas dramáticas. Porém o que mais acho lindo é como elas são algo fora de contexto. Você está passeando pelas ruas de Novo Hamburgo, tomando um sorvete, pensando no estacionamento lotado do shopping e quando menos se espera lá está a catedral: opulenta, feita milimetricamente para fazer seus fiéis sentirem culpa e abrirem os bolsos, mas ainda completamente fora de seu tempo. No mundo moderno as igrejas foram substituídas por shoppings e não há mais espaço para tanta culpa, mas ainda há espaço para a beleza que nela reside.


"Contra o mundo de grosseria que a cercava, não tinha efetivamente senão uma arma: os livros que pedia emprestados na biblioteca municipal; sobretudo os romances: lia-os em quantidade, de Fielding a Thomas Mann. Eles não só lhe ofereciam a possibilidade de uma evasão imaginária, arrancando-a de uma vida que não lhe trazia nenhuma satisfação, mas tinham também para ela um significado como objetos: gostava de passear na rua com um livro debaixo do braço. Eram para ela aquilo que uma elegante bengala era para um dândi do século passado. Eles a distinguiam dos outros." 

Antes de ir pra catedral eu estava tentando me acostumar com a câmera e fotografei alguns livrinhos. Desde que li A insustentável leveza do ser pela primeira vez, sempre que penso no que os livros, a literatura, significam pra mim, lembro desse trecho e da relação que Tereza tem com eles. É uma relação bem especial e próxima à minha própria. Na foto está a minha cabeceira com alguns livros da vez.

Como eu já havia dito, estou longe de ser uma boa fotógrafa e por isso nunca posto as minhas fotos aqui, risos. Mas gostei da ideia e quero seguir com o projetinho. ♥ Não esqueçam de visitar os projetos das meninas que também estão participando:
NatáliaManu 
26 setembro 2018

Oi, eu sou a Mia e eu sou um fracasso. 
É basicamente isso que aquela vozinha interior irritante me diz cada vez que me olho no espelho ou que falho em algo mínimo com o qual ninguém se importa. Tenho um trabalho legal, uma família que me ajuda pra caramba, um namorado que está sempre ao meu lado me dando apoio emocional, tô quase formada na faculdade, tá tudo bem. Mas eu ainda tenho a sensação de ser um completo fracasso. 

~uma mulher séria~

Fiquei pensando que isso é porque estou gorda e, como mulher gorda, me sinto desvalorizada e percebo um certo desprezo das pessoas à minha volta (e até um espanto quando descobrem que, olha só, a gordinha tem ideias interessantes, a gordinha é inteligente, que surpresa). Esse é um dos motivos pra eu estar fazendo o combo dieta + academia agora - que é muito mais motivado por questões de saúde do que por estética, mas mesmo assim não posso negar que cansei de me sentir desprezada pelas pessoas em função da minha aparência. Mas eu já estou fazendo dieta, deixei de comer pão, batata, massa e doce, basicamente tudo de que gosto, e agora virei uma Adulta Responsável que come espinafre no almoço. Faço academia todos os dias depois do trabalho, mesmo nos dias em que estou de tpm e tenho de fazer pausinha entre um exercício e outro por causa da cólica. Já emagreci três quilos e pouco e, mesmo assim, me sinto um fracasso. 

Então lembrei de outra época, quando era uma adolescente esquelética, que quase beirava a anorexia de tão magra e, mesmo assim, me sentia um fracasso. Eu era vocalista, as pessoas adoravam me ver cantar, estava feliz em todos os setores da minha vida, mas sentia que faltava algo que faria com que eu fosse melhor, com que eu me provasse ser capaz de fazer o que eu fazia.

Me dei conta disso durante a leitura de A arte de pedir, também conhecido como o Livro da Amanda Palmer. Não, eu não gostei da leitura, não é o meu tipo de livro, mas tem umas reflexões bacanas e sinceras, como a da patrulha da fraude. Ela é basicamente uma definição da síndrome do impostor, que consiste em dúvidas eternas a respeito da nossa capacidade e vozes questionando incessantemente o merecimento em relação ao sucesso das coisas que fazemos.

O que me incomodou demais no livro é que a Amanda é o tipo de pessoa Carinha Sorridente, porque confia em todo mundo. Ela GOSTA de pessoas MESMO. Eu jamais vou entender como alguém pode gostar tanto assim de gente que nem conhece direito, mas okay, cada um com suas doidices. Porém, isso definitivamente não é pra mim e o discurso dela é meio que "coisas boas vão te acontecer se você confiar no universo e se unir à grande comunidade humana".

Porém, apesar de toda a vibe Pollyanna dela, tem coisas ali que realmente fizeram sentido. Como

vulnerabilidade 
se mostrar pra o outro 
contar sua história 
compreensão

Estou longe de ser uma Amanda Palmer da vida e certamente não acho legal a ideia de se mostrar vulnerável pra todos, mas essas coisas fazem parte do meu dia-a-dia especialmente por conta do blog. Ter um blog há tantos anos quanto eu tenho é como ter uma segunda casa. Quando as coisas estão estranhas ou tristes ou divertidas, é pra cá que venho contar. A família da casa é a família que criei na internet, cheia de gente bacana e esquisita, assim como eu, que me acompanham há anos (e que eu também acompanho). A gente sabe quase tudo da vida uns dos outros só de escrever em bloguitos e compartilhar nossas histórias por aí. E isso é mais real do que muita coisa fora das telas.

Mas, com toda a loucura de trabalho, faculdade, mil coisas pra fazer, textos pra o Valkirias, revisão de livros pra outra firma, minha lista de leitura acumulada e tudo o mais, às vezes fica difícil parar e realmente tirar um tempo pra sair do piloto automático e ser sincera comigo mesma, sem me importar se isso ou aquilo é adequado para a situação.

"Quando a gente tem medo do julgamento dos outros, não dá para se conectar com eles. Ficamos preocupados demais com a tarefa de causar uma boa impressão."

Desde criança eu quero ser levada a sério. Talvez o meu grande objetivo de vida, e motor de tudo o que fiz até agora, foi ser levada a sério. Ser uma Adulta Responsável parecia a alternativa viável para que as pessoas parassem de rir de mim e eu deixasse de me sentir um fracasso. Ontem um colega disse que eu tenho um semblante de seriedade. Minha primeira reação foi de negação, afinal eu sou uma palhaça, oras. Só hoje pela manhã me dei conta de que isso sempre foi o que eu mais queria. A Mia de 13 anos só desejava ser levada a sério. A Mia de vinte e poucos que parou de usar roupas coloridas pra ir pra faculdade também. Então, por que eu não me senti bem por um colega me perceber como uma pessoa séria?

Existem momentos para a seriedade, mas ser vista como uma pessoa de semblante sério é fechar muitas portas de conexão com os outros. Não que eu seja alguém extrovertida que esteja ansiosa para me conectar com as pessoas, no entanto também não desejo me fechar. Não quero ser essa pessoa mais. Não tem a ver com quem eu sou.

Mas então quem eu sou?
Oi, eu sou a Mia. Tenho vinte e poucos anos, mas minha cabeça está muito mais focada em eventos de história antiga e medieval do que em músicas pop atuais. Já fui cantora, vocalista, toquei bateria, aprendi um pouco de teclado. Se tivesse de ouvir apenas dois gêneros pra o resto da vida, escolheria o rock e o erudito (maneira chata de se nomear a música clássica). Só durmo com barulho de chuva. Tenho insônia. Adoro ler, mas prefiro escrever. Já escrevi dois romances e um livro de poesia, mas só mostrei ao mundo os poemas numa exposição de artistas porto-alegrenses porque sempre acho que tudo o que faço é um fracasso e não tenho coragem de mostrar minhas ficções. Sou aquariana com ascendente em escorpião e lua em câncer, e isso pode não dizer nada ou dizer tudo, depende muito mais de você do que de mim. Não tenho religião, mas acredito em muitas coisas. Tenho muitos amigos, mas gosto de estar sozinha. Se pudesse, meu guarda-roupa seria uma mistura da moda vitoriana com lindos vestidinhos da Grécia antiga. Minhas histórias preferidas são de terror. Gosto mais de séries do que de filmes. Sou quase jornalista e não tenho muita ideia do que realmente farei quando me formar, só sei que continuarei escrevendo.

E nada disso explica quem eu sou, mas já é um bom começo.

"Você nunca consegue dar às pessoas o que elas querem. Mas pode lhes dar alguma outra coisa. Pode lhes dar compreensão. Só conte a história. Conte inteira. Elas vão entender."

É mais ou menos isso o que faço e tem dado certo.
(Mas ainda não acredito na vibe vamos confiar em todo mundo que a dona Amanda tem; porém, acredito na relação de confiança e apoio que tenho com vocês aqui na blogosfera, e isso já me basta.)