Eu odeio Margo Roth Spiegelman

Por seu descaso.
Por sua mania de se achar o centro do mundo.
Por não dar a mínima para ninguém.
Por ser egoísta.
Por ser tão parecida comigo que dói.


Ler Cidades de Papel, do John Green, foi dolorido. Cansativo. Um processo de "ler-vinte-páginas-largar-voltar-a-ler-dois-dias-depois-querer-dar-tapão-na-Margo-largar-o-livro". A história é basicamente a seguinte: Margo um dia, mais ou menos um mês antes da formatura do Ensino Médio, resolve simplesmente fugir. PORQUE SIM. Aí chama seu vizinho (que era seu amigo quando criança), Quentin, à noite, vestida de ninja, apenas porque ela é Margo Roth Spiegelman (sério, o nome completo é repetido tantas vezes que o decorei; o que é meio uma vibe Gabriel García Márquez, que repetiu tanto os nomes de Florentino Ariza e Fermina Daza em O amor nos tempos do cólera que jamais esquecerei-os) e quer sair com ele numa grande despedida (após anos sem conversarem) sem que ele saiba que se trata de uma despedida e que no dia seguinte a menina iria desaparecer.


Quentin, como bom babaca garoto que é, assim que percebe que Margo Roth Spiegelman (aprendi a escrever esse maldito nome sem ter de verificar no livro, rá! pra vocês perceberem o QUANTO ele é repetido) sumiu, o rapaz entra em parafuso, achando que ela morreu, e começa a procurar pistas da menina pra tudo quanto é lado porque coitadinha, né, gente. A guria se mandou do nada (já tinha histórico de fugas), fugiu de sua vidinha quase-perfeita mais uma vez, de seus pais, de sua irmã pequena, de uma dezena de amigos e de tantas outras pessoas a quem ela não chamava de amigos, mas que se mostraram muito mais amigos do que os titulares no decorrer das páginas.

E aí que vocês me dirão: "mas Mia, se tu detestou tanto assim a guria, como me diz que se reconhece nela?" ENTÃO, MIGA, SENTA QUE LÁ VEM A HISTÓRIA.
Eu sou, sim, uma pessoa que surta. Sou bem o tipo de pessoa que sai correndo, fugindo das coisas, apenas porque sim. Quando comentei no fb que tava odiando o livro, o povo que já o tinha lido comentou que a Margo era uma bitch e blablabla. Nem discordo. Ela é mesmo. E eu também, só que não tanto porque me freio e muito.

Penso ao menos uma vez por dia em largar todo mundo de mão e sair por aí. E quando eu digo todo mundo, é todo mundo mesmo. Isso que a Margo diz no livro de sentir-se uma garota de papel numa cidade de papel, uma garota fictícia, composta a partir do que os outros pensam dela, numa cidade em que todos são assim, todos de papel, segurados por fios de náilon, isso eu sempre sinto, sempre senti. E acho que todo mundo sente-se assim um pouco, lá no fundo, nos dias blergh, nos dias mais ou menos.

O problema é quando a pessoa sente-se assim diariamente. Eu me sinto. Desde sempre. E isso faz com que eu tenha, sim, vontade de fugir pra qualquer lugar e ficar sozinha porque parece que todos estão se esforçando tanto, e eu também me esforço tanto e, poxa vida, não tá certo.

É aquela coisa de quando você pára pra pensar e não consegue encontrar ninguém com quem realmente conversar abertamente. Porque as pessoas não querem ouvir as coisas pesadas, as coisas profundas. Todo mundo quer ficar ali, na margem, na borda, no arco-íris com pôneis. E eu também. Porque nem eu aguento tanto drama. A vida de todo mundo é um certo tipo de drama, mas algumas pessoas escolhem lidar com as coisas de outra forma, de outro ângulo, porque nem tudo tem de ser um drama. Eu tento.

Tento tanto que estou há 2 anos sem abandonar pessoas, sem fugir de coisas, de situações, encarando tudo de frente, whatever happens. E se você acha isso muito simples, lhe direi uma coisa: NÃO É SIMPLES, NÃO. É horrível e há dias em que eu sinto algo me incomodando o rosto, vou ver e são lágrimas (bem discretas, que não sou de escândalo), assim, no meio do ônibus, durante a viagem, dormindo (!!!!), em qualquer lugar em que eu esteja. Porque dói. Dói ser uma pessoa que enxerga o mundo como uma construção de papel segura apenas por fios de náilon meio desgastados. Dói ter esses impulsos de abandonar pai, mãe, irmãos, namorado, amigos, todo mundo e viver sozinha, sei lá como ou onde, nas montanhas, provavelmente. Dói me esforçar diariamente para ser uma pessoa responsável e fazer planos e seguir, de fato, esses planos. Dói TER DE acordar diariamente às 5h da manhã pra pegar um ônibus em poucos minutos e ficar sufocada entre sessenta pessoas apertadas num mesmo veículo, com cheiros estranhos, sorrisos estranhos, conversas forçadas, suores estranhos, hálitos matinais e odor de mortadela temperada com queijo. Dói TER DE voltar pra casa apenas perto da meia-noite (ou, às vezes, até mais do que isso), ter 4 horas de sono e olhe lá porque no outro dia tem mais. E mais pessoas. E mais sorrisos. E mais "fingir que tá tudo bem, the show must go on". Não fugir. Concentrar. Há pessoas legais, há pessoas que fazem valer a pena. Mas nem sempre.

Os fios são finos. Um dia, podem partir.
E haja novelos para refazer as amarras.

Então, sim, eu entendo Margo Roth Spiegelman. E, por isso mesmo, a odeio. A odeio da mesma forma com que odeio todas as pessoas que abandonam aqueles que preocupam-se com elas. A odeio da mesma forma com que odeio todas as pessoas egoístas demais. A odeio da mesma forma com que odeio todas aquelas pessoas fracas que recusam-se a dominar seus instintos e ter uma vida normal porque, queridas pessoas, todo mundo tem ímpetos de sair correndo e se eu consigo permanecer, se eu consigo cultivar relacionamentos estáveis e amizades que duram décadas, se eu, a pessoa mais emocionalmente instável que conheço, consigo me mandar calar a boca e seguir em frente porque isso não é depressão, isso é a vida, isso é mimimi, isso é drama queen I was born to be, então Margo Roth Spiegelman também conseguiria.

Não há perdão para aqueles que desistem.

É muito difícil ir embora – até você ir embora de fato. E então ir embora se torna simplesmente a coisa mais fácil do mundo. 

Gravidez de Schröedinger

Da série "as pessoas, elas são loucas".

Cheguei na médica, entreguei meus exames pra ela e ela disse:
— Parabéns, você vai ser mamãe.
— (risadas histéricas) Impossível! (mais risadas histéricas)
— Por que impossível?
— Porque, pra começo de conversa, a pessoa precisa ter relações pra engravidar. E eu não sirvo pra Virgem Maria.
— Mas quais são teus sintomas mesmo?
— Tonturas, enjoos, mal estar, cansaço e falta de apetite.
— E quando foi a última vez que desceu teu sangue?
— Final de janeiro.
— Mas então, isso é gravidez!!!!!
— NAAAAAAAAAAAAO, não é, não pode ser, HAHAHAHAHAHAHAHA
— Então como tu explica o fato de estarmos em março e ainda não ter descido?
— Moça, eu tive um nervous breakdown lindíssimo mês passado. O sistema desregula todo nessas horas, é normal.
— Qual é o método anticoncepcional que tu usa?
— Eu fecho as pernas.
— E quando foi a última vez que tu teve relações?
— HAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHHAA (Mia chorando de rir)
— Tanto tempo assim?
— HAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHA (mais risadas ainda)
— Mas tu tem 21 anos.
— Sim.
— Como pode não haver possibilidade de estar grávida?
— Percebe-se que a senhora não me conhece, HAHAHAHHAHA, eu só vim aqui pra checar meu colesterol, moça, só isso.
— Tá, então vamos refazer os exames agora.

Médica me pega pela mãozinha e me leva pra fazer mais exames na hora. Faz, pega os resultados (a coisa é dinâmica quando querem) e constata que:

— Realmente, tu não tá grávida.
— Te disse.
— Mas tá com uma anemia que precisa ser tratada.
— Q? E o colesterol?
— Tá bom. Mas a anemia precisa ser tratada JÁ. Isso explica teus sintomas.
— Okay. E qualé o tratamento?
— Suco de laranja natural.
— Sério?
— Sério.

Conversamos um pouco e ela resolveu me dar umas vitaminas também. Mas a questão é que: MERMÃO, POR QUE AS PESSOAS (médicos) SEMPRE ACHAM QUE ESTOU GRÁVIDA? Quando vão aprender que, olha, não?! Risos.

~vocês cansam a minha beleza~

Então é isso, gente. Como dona Lene disse: saí de uma consulta pra o colesterol com gravidez e curada com uma anemia.

Agora a dinâmica é tomar sulfato ferroso e mais uma pá de vitaminas e blablabla diariamente. Isso tudo passando vinte horas por dia longe de casa. NÃO É FÁCIL, lhes direi. Mas poderia ser pior. (Ou não.) 

Toda forma de carinho tornou-se fetiche

Eu sou uma pessoa carinhosa.
Mentira. Eu sou uma pessoa seletivamente carinhosa. Atenciosa. Apenas com quem quero (ou seja: pessoas que podem ser contadas nos dedos, literalmente). Sempre gostei de andar de mãos dadas, braços entrelaçados e fazendo brincadeiras bobas ao caminhar. É um tipo de intimidade carinhosa que gosto de ter com aqueles que conseguem fazer com que eu me sinta a vontade. (O que é algo bem difícil para uma pessoa introvertida.)

Aí que estava eu ontem caminhando pelas ruas (sim, ruas) da faculdade com minha colega/amiga de mãos dadas. Porque sim, ué. Era noite, estávamos no intervalo e decidi que precisava de um ar porque "muita gente na sala, preciso de ar puro" e quase que a arrastei pra fora (risos) para não ir sozinha (porque pessoas; sério, gente, pessoas, eu não lido bem com 99% da humanidade). Peguei a moça pela mãozinha e lá fomos passear na floresta enquanto o lobo não vinha.

No que uma coisa aconteceu: certa moça passou por nós e começou a rir da cena. Sim, a moça olhou para nós, passou por nós e riu de nós. Riu porque estávamos de mãos dadas. Riu porque deduziu que éramos um casal lésbico.

Não é a primeira vez que isso me acontece. Como eu disse antes: tenho poucos amigos, mas trato-os como irmãos; ando de mãos dadas, abraço e brinco sem dificuldade alguma. Fora que, sinceramente, nunca me importei com a opinião alheia.

Quando estava no fundamental ainda tinha fama de lésbica na escola por conta desse comportamento. Porque, aparentemente, duas meninas não podem ser carinhosas uma com a outra sem que haja conotação sexual. Toda forma de carinho tornou-se fetiche, tornou-se piada, tornou-se gatilho para preconceito.

Eu não sou lésbica. Nem bissexual. Sou hétero. Nunca fiquei com meninas, nunca senti atração por moça alguma. Mas já fui e continuo sendo tachada de lésbica porque sou, sim, carinhosa com minhas amigas. Talvez seja por conta do meio em que me encontro. Passei mais da metade de minha vida (até agora) convivendo com uma comunidade evangélica. E, neste momento, estudo numa faculdade católica, onde há (muitas) pessoas preconceituosas, sim.

Aquele riso (uma gargalhada abafada) de ontem não foi o único que ouvimos durante o percurso. Houve olhares, risinhos disfarçados, rapazes olhando-nos com desejo e toda sorte de julgamentos precipitados.

Eu não tenho problema algum em ser considerada lésbica ou bi ou whatever.
Mas eu tenho um sério problema em manter a calma perante o preconceito alheio.


(Porém, minha vontade é de voltar no tempo e arrancar a cabeça daquela criatura a tapa, mas me controlo.) 

Eu sou uma equação impossível

Tava lendo o A menina que brincava com fogo e me deparei com um trecho que é algo que não se aplica e não faz muito sentido se dito separadamente, mas na minha linha de raciocínio, faz.
Minha linha é: eu sou uma equação impossível.
Porque o trecho define equações impossíveis. As matemáticas, mesmo.
Que enlouquecem matemáticos, gênios, que jamais têm solução concreta, que quebram calculadoras.
As equações absurdas, para as quais nenhuma solução é adequada, são qualificadas de impossíveis. 
Achei incrível.
Achei autobiográfico. 

Um fator de caos permanente

Ontem eu fui no banheiro do curso e a arquitetura de lá é... singular.
Há um canto que faz uma curva e se fecha. Mas por um momento eu pensei que não se fechasse. Pensei que seria um canto estreito e escuro, de uns 50 cm de diâmetro. E minha vontade foi de me enfiar lá e ficar quietinha, no escuro, sozinha. Num local pequeno, onde não sobrasse espaço, nem faltasse. Onde eu coubesse.

E foi aí que eu percebi que sempre tive essa vontade, mas nunca havia verbalizado tal coisa.

A vontade de sumir num cantinho. De caber em algum lugar. Qualquer lugar. Não importando se alguém estaria comigo ou não. Não importando se alguém me faria companhia. Eu apenas gostaria de caber. De pertencer. De estar no lugar certo. De sentir essa certeza. Sentir que aquele lugar foi feito sob medida para mim.

Eu apenas queria uma sensação de pertencimento.

pra caramba 

I like things that look like mistakes

Porque ter vinte e poucos anos não é lá muito fácil. Porque a sensação de "o que diabos estou fazendo da minha vida e por que todo mundo parece seguir um roteiro exato de seus atos, de suas escolhas? onde está a droga do meu roteiro? por que não o recebi? CADÊ MEU ROTEIRO, CARA?!". Aquela sensação de que todos parecem ter crescido, ter virado pessoas responsáveis, adultos, e você ali, in the middle, sem saber o que diabos está fazendo e vendo laços esgarçarem-se, pessoas que você pensou que permaneceriam indo embora do mais absoluto nada.


Frances Ha fala sobre isso. Sei que na sinopse estará escrito que é sobre uma bailarina que quer um emprego melhor e blablabla. Mas não é. Ao menos não é SOMENTE sobre isso. Frances é uma mulher de vinte e poucos anos que está tentando viver sua vidinha de uma forma menos ordinária. Que procura sentido nas coisas. Resumindo: assistir Frances Ha foi como ter um vislumbre da minha vida num futuro próximo.

Motivos: 


1. I'm not a real person yet resume a vibe de toda uma vida. Não consigo me acostumar a alguém me chamando de mulher, por exemplo. Isso é louco demais pra mim. Quer dizer, eu me vejo ainda como uma pessoa muito nova, uma guria, uma quase-adolescente que tá brincando de ser adulta num mundo de adultos. Sei lá o que tô fazendo aqui. Não sei lidar com gente que fala sério o tempo todo e fala sobre imposto de renda e IPTU e o que diabos são todas aquelas taxas, meldels? Eu sou confusa. Sou geograficamente perdida. Ontem meu irmão me disse que agora eu tenho juízo, tô crescida, virei uma adulta responsável e eu comecei a gargalhar, porque né?! NÃO SEI.

2. Levo as pessoas em consideração. E isso não é lá muito bom, assim, na vida. Como a Frances, eu tomo decisões baseada em como as pessoas reagirão com isso ou aquilo. E como ela, me ferro todas as vezes porque eu levo os sentimentos alheios em consideração, mas ninguém leva os meus.


3. Tenho problemas com finais. Não gosto de nada que termine. Nem é aquela coisa de ser apegada, mas é mais uma poor social skills, literalmente não sei lidar com fins. Finais de filmes, séries, músicas, relacionamentos, festas, hora de ir embora. Sempre sei quando é, mas nunca sei como proceder. I have trouble leaving places diz tudo, mas tudo mesmo.


4. Eu saio correndo sempre que estou acuada. Literalmente. Estou sempre de tênis por conta disso, inclusive. Sempre pronta para sair correndo. Na cena em que Frances, após tudo desabar novamente, se manda pra Paris pra passar dois dias ostentando um olhar bovino num local diferente do mundo, eu senti uma identificação tão forte que tive de fazer uma pausinha no filme apenas para refletir se a pessoa que criou essa história não seria leitora do meu blog. PORQUE NÉ. Sério, gente. Eu saio correndo. Pra qualquer lugar. Eu fujo das coisas que me incomodam. E quanto mais elas me incomodam, mais eu fujo, por mais que eu saiba que isso só vai fazer com que a situação piore porque terei de lidar com tudo depois e tudo estará acumulado. Mas é apenas meu jeitinho Frances de ser. Risos.

5. Dou brechas pras pessoas. Há uma cena em que Frances está numa festa entre "amigos" e percebe, de repente, que falou bobagem demais, coisas pessoais demais pra aquela gente que não se importava. Então ela diz "tô indo embora" e fica olhando pra todo mundo com uma cara de olhar bovino por alguns momentos. Aí repete "tô indo embora" na esperança de que alguém peça pra que ela fique. Mas ninguém pede. Ninguém nunca pede. E isso é tipo um grande-pequeno resumo do meu comportamento para com pessoas com as quais considero ter alguma amizade. Dou brechas para que elas me peçam para ficar, mas ninguém nunca pede. E isso é um saco, se querem saber.


Yes, my blog looks so happy, but no one is THAT happy and everybody should know that.

E este texto deve estar cheio de erros de português e inglês, mas estou com febre e meio ranzinza, então dane-se. Frances, te dedico. ♥  

A luta continua

Para mim o dia da mulher sempre foi o dia da minha mãe.
Dona Laura, pisciana pura, divide seu dia com o dia internacional da mulher. Coisa que acho muito justa, por sinal. Eu não tenho a melhor das relações com minha mãe porque, bem, somos pessoas muito diferentes. Ela é pisciana - e eu realmente acho que isso diz muita coisa, mas caso não diga para você, explico: ela é sentimental, propensa ao drama e tem sentimentos fortes de rejeição e abandono. Eu sou aquariana: racionalizo tudo, penso demais, enlouqueço a mim mesma de tanto pensar e provavelmente enlouqueço a todos ao meu redor quando entro em horas de silêncio quase catatônico apenas porque, oh, estou tão absorvida por meus pensamentos... Não sou melhor ou pior que ela, apenas sou astrologicamente diferente. Socialmente. Fui criada por ela, sim, mas numa sociedade muito mais livre em comparação àquela da qual ela fez parte quando jovem. Mas admiro minha mãe. Muito.

Minha mãe aos 16 anos foi obrigada a se casar com o cara que a estuprou. Sim, obrigada. Isso porque naquela época (anos 60) ela morava numa cidadezinha do interior sulista, ainda regida fortemente pelas leis patriarcais que fizeram com que tantas mulheres padecessem por séculos. Um dia um cara a estuprou e meu avô simplesmente obrigou minha mãe a casar-se com ele porque, afinal, ele não toleraria uma desonra tamanha em sua casa, não toleraria uma filha desvirginada e solteira.

Ela casou, teve 2 filhos num intervalo de 2 anos. Apanhou praticamente todos os dias durante esse casamento. Era basicamente uma criança que fora obrigada a ter outras duas crianças com o verme desprezível que a violentou. Até que um dia a violência foi maior do que a de costume e ela foi arrastada pela rua, pelos cabelos, esfolada, humilhada de todas as formas possíveis. E foi aí que ela saiu de casa.

Não sei se vocês estão familiarizados com a história das mulheres no Brasil, mas nos anos 60/70 ser uma mulher separada não era uma coisa lá muito aceita pela sociedade, ainda mais em cidades interioranas. Ainda mais se a mulher tivesse filhos. Minha mãe prestou queixa na delegacia, mas o cara, que era rico, apenas contratou um bom advogado e tudo ficou por isso mesmo. Ela tentou voltar para a casa dos pais, mas não conseguiu, porque ninguém queria a vergonha de uma mulher separada em casa. Vergonha. Desespero. O estereótipo de vagabunda que abandona a família. Porque "uma mulher tem que aguentar tudo pelo seu casamento". A maior das mentiras, a mais brutal delas.

Minha mãe, que não havia conseguido completar seus estudos, com duas crianças de colo nos braços e ninguém disposto a ajudá-la foi trabalhar como auxiliar de cozinha num restaurante na cidade grande, Porto Alegre, e lá aprendeu aquilo que faz tão bem até hoje (muito bem, por sinal) e que me ensinou a fazer: cozinhar. Desdobrando-se entre cuidar dos dois meninos ainda pequenos, cozinhar para pessoas na capital do estado e estudar para tentar completar ao menos o primeiro grau, minha mãe levou sua vida por anos dessa maneira. Até que um dia conheceu meu pai e, bem, o resto é história.

Fui criada com esse exemplo dentro de casa. Essa história nunca foi escondida. Há muitas pessoas que não gostam quando eu falo de violência contra a mulher, de estupros, de assassinatos, de machismo. Mas é necessário falar. Não é silenciando que conseguiremos uma vida bonita de comercial de margarina. É deixando os holofotes iluminarem os bastidores que talvez consigamos mudar essa realidade desumana em algumas gerações futuras. Eu acredito que sim.

Fui ensinada a nunca depender de homem algum. A ser a melhor em tudo o que fizesse para que ninguém me maltratasse, me batesse, me fizesse sentir inferior ou acuada. Aprendi que sempre devo colocar meus estudos como prioridade, que não devo confiar em pessoas, especialmente homens, que devo cuidar de mim mesma e saber o que é certo ou errado por meu próprio julgamento. Que devo saber fazer escolhas. E nunca me deixar dominar. Desde a tenra infância aprendi a como me defender, aprendi a lutar (literalmente), aprendi a estar sempre de tênis para correr se algo acontecesse. Pode parecer um exagero todo esse preparo, toda essa preocupação, mas não é. O que aconteceu nos anos 60 com minha mãe acontece diariamente com milhares de mulheres ao redor do mundo inteiro. Não é uma realidade isolada. A história dela poderia ser a história de qualquer mulher. Porque é real, é verdadeira, é, infelizmente, comum.

Por isso mesmo acho digno minha mãe dividir seu dia com o dia internacional da mulher. Ela é a representação fiel do porquê haver um dia para nós, mulheres. Não desejarei um feliz dia da mulher para ninguém porque isso simplesmente não faz sentido. Enquanto houver motivos para que tenhamos um dia só nosso, um dia apenas para lembrarem que somos seres humanos e que sofremos violências diariamente, não seremos felizes.

A luta continua.
Minha mãe continua.
Eu continuo.

~imagem daqui

TAG: Minha vida em 10 músicas

Eu deveria estar fazendo meu trabalho sobre construção de páginas web, mas resolvi dar uma pausinha porque fazer trabalhos de faculdade E curso técnico (tudo junto e misturado) durante o fim de semana ao invés de, sei lá, VIVER, requer uma grande concentração - que eu não tenho, mas estou aprendendo a ter na marra - e força de vontade. Minha quota de força de vontade de hoje acabou há meia hora e tô aqui na pausinha para atualizar meu blog para depois voltar à sessão tortura estudos.

Dia desses eu tava lendo os blogs alheios quando me deparei com uma TAG muito legal que, assim como o título diz, consiste em resumir sua vida em 10 músicas. É aquela velha historinha: se sua vida fosse um filme, qual seria a trilha sonora? E tava LOUCA pra respondê-la, mas ninguém havia me taggeado.

Até que uma moça chamada Íris me taggeou! Dona Íris, muito obrigada! Fiquei super contente, hein. ♥ Entonces, vamos lá! o/

Uma música que te lembre um momento bom

2° ano do ensino médio. Meus amigos e eu tínhamos de fazer alguma apresentação artística para conseguir pontos na aula de Ed. Física. Resolvemos cantar. MAS CANTAR O QUÊ NA FRENTE DE TODO MUNDO?! Beatles. ♥ Hello, Goodbye. ♥ Foi meio que vergonhoso, mas momentos com amigos sempre são memoráveis, apesar dos pesares.

Uma música que defina sua vida

Acho que essa não é novidade pra quem me conhece, quer dizer, é On the radio, da Regina (linda) Spektor. Eu ouço essa música diariamente porque ela poderia facilmente ser a trilha sonora da minha vida, afinal: this is how works: you peer inside yourself, you take the things you like and try to love the things you took. And then you take that love you made and stick it into some, someone else's heart, pumping someone else's blood. And walking arm in arm. You hope it don't get harmed. But even if it does you'll just do it all again.

Uma música que te faz dançar na balada

Eu não sou o tipo de pessoa que vai em balada, mas uma música que sempre me faz dançar é Single ladies, da Beyoncé. Não tem como ficar parada quando ela toca, hahahaha. ♥

Uma música que foi tema de algum relacionamento

Acho que nunca tive uma música tema de um relacionamento, porém sempre que penso no meu namorado começa a tocar na minha mente a musiquinha incrivelmente engraçada da Ida Maria: I like you so much better when you're naked. E acho que isso diz tudo.

Uma música que te faz chorar 

Se tem uma música que me faz ficar melancólica e quase catatônica essa é Golden slumbers, dos Beatles (sempre eles ♥). Música linda, me toca profundamente e me deixa TÃO triste, mas tão fascinada, que mesmo com lagriminhas não posso deixar de escutá-la.

Uma música que seria o toque do seu celular 

O toque do meu celular tem sido o mesmo há mais ou menos 3 anos: Carry on, da Angra. Porque né, eu sou uma pessoa que pode ser classificada, à primeira vista, como "fofinha": tenho um metro e meio, uso muitos vestidos, roupas com babados, laços no cabelo, sapatinhos de boneca... Aí, do nada, começa a tocar Angra no meu celular e todo mundo à minha volta pára, olha e fica com aquela cara de espanto. Adoro causar esse tipo de reação porque isso mostra claramente que a aparência não é TÃO importante quanto dizem por aí, tampouco tão reveladora assim.

Uma música que você gostaria de tatuar

Time, do Freddie Mercury. A música toda é linda, ele é meu cantor preferido (como todos sabemos ♥), mas acho que ela tem a frase mais linda e verdadeira de todas as existentes em todas as músicas do universo conhecido: time waits for nobody.

Uma música que te deixa com vontade de ficar com alguém 

Ficar em qual sentido? Sei lá, gente. Interpretarei como: uma música que me deixa com vontade de estar acompanhada dazamigas. E essa música não poderia ser outra que não Wannabe, das Spice Girls.

Uma música na qual você está viciada agora 

Essa música tem o refrão mais chiclete de todos, pelamordedels. Aliás, eu virei fã da Ida Maria há alguns meses e ouço diariamente algumas músicas dela, entre elas Cherry red. ♥

Uma música que faz as pessoas lembrarem de você 

 
Olha, eu perguntei pra os amigos e cada um falou uma coisa, então né. Mas mais de um falou Capitão Gancho, da Clarice Falcão, e acho que isso diz muito sobre como as pessoas me veem. E não é bom. Risos.

Agora é a hora das indicações. Mas assim, eu nunca sei quem indicar porque não sei quem já respondeu ou não essa TAG. Entonces é o seguinte: 'cês são livres pra responderem-na, mas caso o façam, por favor, deixem o link nos comentários porque além de adorar TAGs desse tipo também gosto muito de conhecer músicas novas.

É isso, gente.
Tô meio relapsa na blogosfera, eu sei. Mas curso técnico + faculdade não é um troço fácil. Porém: beijo pr'ocês. ;* 

Das viagens de ônibus

Estava eu no ônibus lindamente quase dormindo em cima do pesadíssimo livro A menina que brincava com fogo (não por conta da leitura, mas sim simplesmente porque acordo diariamente às 5h da manhã e não é fácil, gente, não é mesmo) quando um rapaz novinho senta ao meu lado e, a seu lado, de pé, pára uma menina também novinha, cheia de sacolas que ele, prontamente, oferece-se para segurar. E então ocorre o seguinte diálogo:

— E aí, de onde tu tá vindo com essas sacolas?
— Da Saraiva.
— Aquela loja de livros?
— É.
— Mas... LIVROS? Pfff... Que desperdício de dinheiro. Por que não comprou maquiagem pra ficar mais gata?
— Porque eu gosto de ler.
— Mas é desperdício de vida isso aí.

E eu ali, ao lado, me preparando pra começar um discurso todo baseado no "é por isso que você é repetente, meu filho" (havia ouvido o rapaz comentar o fato de que repetiu de ano novamente). Porque vocês sabem, né? Eu estudo pra ser uma futura assistente de biblioteca. MERMÃO, EU ESTUDO TÉCNICO EM BIBLIOTECONOMIA. Sabe? Eu amo livros. Amo bibliotecas. Tô sempre com dois ou três livros na minha bolsa. O que o rapaz disse é algo que não apenas torna todo meu estudo inválido, mas também escarnece de algo que faz tão parte de mim quanto respirar (sim, porque ler, para mim, é tão natural quanto respirar). Mas aí aconteceu uma coisa: a menina que estava falando com ele começou um discurso lindo.

— Tu diz isso porque não gosta de ler.
— Gosto. Só que não sou nerd.
— Eu não sou nerd. Não vivo estudando. Mas amo ler. E comprei mais oito livros hoje pra minha coleção. O oceano no fim do caminho é um deles. Se tu lesse esse tipo de coisa não se preocuparia com roupas, maquiagem das gurias ou qualquer coisa do tipo. Porque ler é a melhor forma de escape que existe.
— OITO LIVROS, SUA LOUCA? TU GASTOU TUDO EM OITO LIVROS?
— Isso mesmo. E adivinha quem tá carregando todo esse peso de livros pra mim? Isso mesmo, tu. Porque é isso que gurias que leem fazem: conseguem tudo o que querem.


Gente, eu tive de olhar pra guria, abrir um sorriso e só não aplaudi porque né, me contive. Mas olha, foi LINDO DE VER. Deu até uma esperança no futuro da humanidade.

Que coisa bonita.
Que coisa harmônica.
Que coisa que iluminou meu dia. ♥