Subindo a montanha mágica

A montanha mágica
Thomas Mann
Companhia das Letras
848 páginas
Ano de publicação: 1924 
Sobre o que é: Hans Castorp é um jovem singelo claramente libriano que consegue um emprego como engenheiro e  como tem um tempinho extra decide, antes de começar, dar uma passadinha no sanatório para tuberculosos Berghof, que fica no cume de uma montanha em Davos, na Suíça, para visitar seu primo Joachim Ziemssen. A ideia do menino Hans era ficar lá por apenas 3 semanas, porém coisas acontecem porque, hello, ele está cercado de gente tuberculosa, e sua estada se prolonga por beeeeeeem mais tempo do que isso. Porém, o tempo é algo meio que inexistente lá na montanha e ninguém dá muita importância a isso, apesar de conversarem pra caramba sobre a vida, o universo e tudo o mais. 

Por que ele é bom? Porque Thomas Mann, essa pessoa maravilhosa? Porque críticas sutis ou nem tanto assim ao capitalismo e a trocentas coisas da vida moderna, incluindo, mas não se limitando a, à burguesia, à religião e ao Estado? Porque o cara começou a escrever esse livro antes da Primeira Guerra Mundial e só o finalizou após ela ter terminado? Porque ele é um retrato bem fiel da alta sociedade europeia alienada da época? Porque Hans Castorp é adorável e não tem como não virar crush literário? São questões. 

A Montanha Mágica é um daqueles livros que a pessoa termina de ler já querendo começar tudo de novo porque é simplesmente apaixonante e envolvente. A narrativa do Thomas Mann flerta com contos de fadas, porém é um conto de fada cujas personagens são tuberculosas, onde o castelo é um sanatório no cume de uma montanha e que se passa numa época fantasiosa em que o Tempo (com t maiúsculo) nada significa e o mundo se prepara para sua primeira Grande Guerra. 

Mas ninguém disse que a mágica do título era boa, não é mesmo?! 

Hans Castorp é um guri bem bobalhão no início do livro que vai crescendo conforme a história se desenrola. Isso porque a montanha não tem apenas alemães ou suíços: lá tem tudo quanto é gente, de várias nacionalidades, e o menino Hans fica amiguinho de umas pessoinhas bizarras & tagarelas que passam metade do livro discutindo acerca de tópicos tão ou nada relevantes, tudo pra não encarar a realidade de que: meu amigo, tá vindo uma Grande Guerra por aí, se aprume. 

Uma dessas pessoas é um pedagogo-humanista-literato chamado Settembrini, que é simplesmente maluco. Ele quer porque quer educar o menino Hans porque, né, quem não gostaria. Eita, menino perdido esse. Mas aí as coisas saem de formas nada agradáveis e cês vão ter de ler pra saber do resto.

Deixa eu fazer um adendo do porquê Hans Castorp virou amorzinho literário: o menino chega à montanha, cheia de gente colocando os pulmões pra fora, mas acha que jamais pegará nada - sendo que o próprio médico chefe, assim que o vê pela primeira vez, deixa bem claro que nunca conheceu ninguém saudável. Mas aí Hans Castorp, essa pessoa invencível, um dia se depara com uma mulher que ele considera irritante e desleixada, chamada Clawdia Chauchat. Um dia depois, menino Hans faz uma caminhada e começa a tossir e a sangrar loucamente. O que ele conclui disso? QUE ESTÁ COM A DOENÇA DA PAIXÃO, MAS É CLARO.


Hans, querido, dá cá a mão e miajuda a te ajudar, sim?!

Por que ele é ruim? Ele não é ruim. Gente, esse livro entrou facilmente pra minha lista de livros preferidos da vida. Inclusive, eu não estava nem na metade da leitura quando isso aconteceu. Os únicos poréns, talvez, são que: 
a. ele tem quase mil páginas 
dependendo da edição, inclusive, chega a faltar umas 20 páginas para as mil, e isso torna a leitura meio assustadora de início porque parece que nunca chegará ao fim, mas posso afirmar que ele acaba antes do que imaginamos e nos faz querer mais e mais; 
b. há uma passagem bem importante inteiramente em francês, sem tradução 
mas há blogs com uma tradução livre desse trecho e, bem, dá pra entender por que ele permanece em francês, é importante pra o espírito da história; 
c. há trocentos diálogos histórico-filosóficos 
e nem todo mundo tem saco pra isso, mas, novamente, é bem importante pra o espírito da história e, particularmente, eu amei esse ponto, já que Thomas Mann fez tudo com muito sarcasmo e bom humor ♥ porém, entendo que nem todo mundo, né. 

Se eu recomendo a leitura? SIIIIIIIIIIIIIIIIIM!!!! Eu nem sei o que cê tá fazendo aqui neste blog que ainda não foi atrás desse clássico maravilhoso. GO GO GO \o/ Mas é aquilo: é um livro sensacional, divertido e apaixonante, só que não é fácil e cê não vai lê-lo em 3 dias, não. Vai ter vezes em que você precisará largar ele de mão e ler algo mais leve e idiota, porém não desanime: cê vai sentir saudade de Hans Castorp & sua turma e logo voltará à leitura. 

Em um quote: 
Que é o tempo, afinal? Quer me dizer isto? Percebemos o espaço com os nossos sentidos, por meio da vista e do tato. Muito bem! Mas que órgão possuímos para perceber o tempo? Pode me responder essa pergunta? Bem vê que não pode. Como é possível medir uma coisa da qual, no fundo, não sabemos nada, nada, nem sequer uma única das suas características? Dizemos que o tempo passa. Está bem, deixe-o passar. Mas para que possamos medi-lo... Espere um pouco! Para que o tempo fosse mensurável, seria preciso que decorresse de um modo uniforme; e quem lhe garante que é mesmo assim? Para a nossa consciência, não é. Somente o supomos, para a boa ordem das coisas, e as nossas medidas, permita-me esta observação, não passam de convenções... (p. 79) 

23 verões à espera da nave-mãe

A coisa que eu mais gosto em fazer aniversário é receber textão dos amigos dizendo como eu sou linda, inteligente & divertida. A coisa que menos gosto em fazer aniversário é... bem, fazer aniversário. 

Tenho um certo problema com dias como aniversário porque parece que a pessoa tem a obrigatoriedade ser ser feliz e, veja bem, a vida não é assim, meu amô. A vida é você acordar às 5h, no dia do seu nome, e ter que sair correndinho porque precisa atravessar duas cidades pra chegar no trabalho e ter trocentas coisas, como operação da PF e coletiva de imprensa. Aí você, que já está numa vibe hello, darkness, my old friend e, pra completar, com tpm, vai começar a chorar porque o namorado quer sair pra almoçar com você, pra celebrar esse magnífico dia, no entanto seu salário está atrasado e você não tem passagens pra isso e odeia depender das pessoas, mesmo que elas não se importem, porque você foi criada pra ser um ser independente e autossuficiente, mas não contava com uma coisa louca chamada vida adulta. 

Agora, alguém aqui está preparado pra ser adulto aos 23? Não sei vocês, mas eu não apenas não estou como me sinto cada dia mais despreparada. 

Quando eu tinha 13 anos super achava que, aos 20, já estaria quase formada na faculdade, teria encontrado o Amor da Minha Vida™ e seria linda. Hoje faço 23 e já troquei de curso na faculdade, deixando toda uma graduação pela metade, não acredito mais em Amor da Minha Vida™, no entanto tenho um namorado muito querido e com quem me imagino dividindo, sim, meus dias daqui pra frente e, bem, digamos que já estive mais bonita.

Só que a questão não é essa, nunca foi. Eu me escondo por trás de questões menores como metas, listas, planejamentos de anos e décadas quando, na verdade, o grande problema é que: está chegando o dia em que realmente terei de assumir, sem ajuda de terceiros - ou segundos -, os rumos da minha vida e pegar toda a responsabilidade que o universo chama de vida adulta e carregá-la por aí, como um fardo.

Quer dizer, tem toda a questão do fardo de ter 23 e a recém estar no 3° semestre da faculdade porque decidiu, olha só que ideia boa, trocar de curso na metade, não é mesmo. Aí que todo mundo que um dia foi tua colega já se formou ou está se formando e você está onde? Isso mesmo, ainda tendo cadeiras com calouros porque não basta não estar nem na metade da nova graduação, não. Era necessário também ter trancado algumas disciplinas e ter, ainda, de fazer aulas do 1° e 2° semestres. Tudo isso enquanto trabalha loucamente o dia inteiro, porque tem a assessoria de imprensa pela manhã, as reportagens do jornal à tarde e a aula à noite, contudo, durante os intervalos, há que se vender doces - trufas e afins - porque as contas, elas não param de chegar.

E onde fica a vida nisso tudo? A vida a gente vai ajeitando. Uma folga aqui, um feriado ali, dormir na casa do namorado, fazer sessão pipoca cazamiga, comer bergamota debaixo de uma árvore e rir do ridículo da vida... Ela acontece enquanto estamos muito ocupados pagando contas.

E meio que acho que isso é virar adulto: estar ocupado pagando contas. Quando, na verdade, você queria era estar aproveitando esse ínfimo tempo de juventude que ainda lhe resta pra desbravar o mundo, acampar no Himalaia e levar uma mordida de um urso polar enquanto observa as luzes do Norte. Mas você encarnou como proletária brasileira, então fecha a boquinha a-go-ra e vai trabalhar mais um pouco pra tentar comprar uma casa, uns miojos e uns molhos de procedência duvidosa, porém super certificados pelo senhorzinho do mercado da esquina.

Quem é que disse que tô amarga, hein? Tô amarga, não, gente. Tô só com sono mesmo.

Afinal, 23 anos, né. A pessoa precisará acordar daqui a 6h e está fazendo o quê? Escrevendo num blog. RISOS NERVOSOS.


Parabéns para mim (e para as minhas invejáveis habilidades gráficas, como vocês podem perceber na exímia montagem acima). 

Fico tensa em janeiro

E a edição de inferno astral do 23° aniversário ainda se encontra em pleno vigor aqui, em terras gaúchas. 

Faço aniversário em 2 dias e desde dezembro estou sob os efeitos das tramoias do universo astrológico pra fazer desse período o mais bizarro de todos durante o ano - como se o calor do verão já não fosse o suficiente, mas né. "Mas, Mia, cê acredita nisso?" Olha, vejebem que eu não acreditava em nada disso, não, porque né, parece bobagem essa coisa de ter um período do ano cagado só porque ele antecede seu aniversário. 

Mas o nível de coisas bizarras que acontecem s e m p r e no período de 21 de dezembro a 26 de janeiro é alarmante.

O motivo é INFERNO ASTRAL, MEU AMÔ!!!!!! Se você não acredita, problema seu, mas este post é um exemplo verídico de como isso funciona. 


Resuminho das últimas 4 semanas: 

~para ler ouvindo~
Tudo começou no dia 20 de dezembro em que eu, completamente idiota, fui fazer o quê? Um ritual no elevador da biblioteca da faculdade pra ir pra uma outra dimensão.  Pausa pra um: HAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHA Tenho problemas, será? Vim ao mundo sem o gene do bom senso? São muitas questões, mas o fato é que fiz isso, acompanhada de dois amigos tão perturbadinhos quanto eu, e foi louco o que aconteceu em seguida. 

O que ocorreu foi que, quando vimos que o ritual não havia dado certo, fomos pegar nossas mochilas nos armários da biblioteca pra irmos pra casa. Aí que estava eu pegando a minha mochilinha linda quando, de repente, se aproxima um rapaz todo de verde e pára ao meu lado. Detalhe: ele não estava com mochila alguma, apenas estava totalmente vestido de verde, era jovem e com um rosto sem expressão ou sequer linhas. O menino ficou parado ao meu lado, reto, até o momento em que tirei a mochila do armário. Nesse instante, ele simplesmente colocou suas mãos lá e lá ficou, sem mochila nem nada, apenas parado. 

Pessoas bizarras de outra dimensão, quem curte. 

No dia seguinte (21) eu tinha de ir até a faculdade novamente pra assinar uns documentos do estágio (que começaria no dia 22). Estava eu, descendo do ônibus, em frente à universidade, quando, no meio da descida, o motorista arranca e eu caio e bato o cóccix nos degraus. Nisso, o querido motorista dá uma paradinha, olha o que aconteceu - menina caída nos degraus, sem conseguir se mexer - e arranca novamente a toda a velocidade. Aí acontece o quê? Isso mesmo, eu sou jogada pra rua. No que um outro ônibus, que estava atrás daquele, bate em mim, em pleno ar, também no cóccix. E essa batida resulta em uma queda no meio-fio da calçada que também me fez bater - NOVAMENTE - o bendito cóccix.

Nesse momento eu nem tinha mais consciência de onde estava tamanha a dor que sentia no quadril e na coluna.

Fiquei paradinha por o que pareceu uma eternidade, mas na realidade foram apenas uns 15 minutos, sentada ali mesmo, na calçada, onde havia sido atropelada caído. Quando me dei conta de que iria conseguir me mexer sem quebrar nada de aparente e não havia ficado paralítica, olhei pra os lados e percebi que:
a. as pessoas, elas são muito escrotas - não que eu já não tivesse percebido isso antes, mas digamos que ocorreu toda uma revitalizada no processo;
b. a parada estava cheia e ninguém, NINGUÉM me ajudou ou perguntou se eu precisava de ajuda;
c. inclusive, entre essas pessoas havia um casalzinho que tava na maior pegação, parou, me olhou, se olharam e continuaram a se pegar;
d. ambos os ônibus que me atingiram arrancaram e me deixaram ali, sozinha;
e. eu já falei que as pessoas são escrotas? pois é.

Quando finalmente consegui me mexer já havia se passado cerca de meia-hora e eu tava morrendo de dor e mancando loucamente. Fui até a faculdade e lá encontrei uma amiga que, assim que me viu e perguntou se tava tudo bem (nunca perguntem, evita o trauminha), se deparou com a reação completamente ridícula de me ver chorar e gargalhar ao mesmo tempo porque meldels, que dor dozinfernos, mas como a vida é bizarra, tava muito engraçado, que acidente mais estapafúrdio.

O roteirista da sitcom que é a minha vida, ele se supera nesses períodos de inferno astral.

Fui ver a documentação, passei no jornal e, após toda essa peregrinação mancando e sem ser ajudada de forma alguma porque as pessoas simplesmente não acreditavam que eu havia sido atropelada, já que, aparentemente, não havia sangue - e digamos que o fato de eu estar gargalhando histericamente não ajudou muito -, me dirigi ao pronto socorro do hospital que fica em frente à faculdade. Nisso, se sucedeu o seguinte diálogo entre a médica e eu:

— Então, eu fui atropelada, bati 3 vezes o cóccix e acho que tá quebrado porque tá doendo pra caramba e estou mancando.
— Deixa eu olhar. ~olhou muito por cima só me dando uma viradinha~ Não, não, tu não foi atropelada. Não vamos te atender aqui, aqui só atendemos casos de emergência.
— MAS EU ACABEI DE SER ATROPELADA E...
— Tu tá andando, tá bem.
— Mas...

E ela saiu, balançando a mãozinha e me deixando ali, morrendo de dor, mancando e falando sozinha. Aliás, sair balançando a mãozinha, que digno. Gostaria muito de ter essa atitude também, mas né. Não fomos dotadas de tais habilidades nesta encarnação.

Voltei pra casa e encontrei dois amigos meus me esperando assim, porque sim, né. O que foi bem divertido, porque eu toda mancandinho e descabelada e oferecendo suquinho e mostrando livrinho porque BOAS MANEIRAS, não é mesmo.

Alguém me arranca esse espírito de romance vitoriano de ser, por favor? Agradeço.

No dia seguinte (22) havia dois eventos bem importantes:
a. o primeiro dia do estágio. SIIIIIIIIIIM, tinha de ser justamente no dia posterior ao acidente, mas é claro, não seria de outra maneira sendo comigo, né, hahahaha aí tive de acordar às 5h pra poder chegar lá num lugar totalmente desconhecido, sendo que moro super longe e teria de caminhar 3 quadras gigantescas do ônibus até o trabalho. M A N C A N D O ♥
b. aniversário do namorado, que vem a ser sagitariano e estava completando seu primeiro retorno de Saturno. ousseje, eu iria direto do estágio pra São Leopoldo, que é uma cidade lá no fim do mundo e eu também teria de caminhar pra caramba pra modos de pegar ônibus + trem até chegar lá e, vejebem, não estava sendo possível ir até o banheiro sem ficar toda aiaiai, dá cá a mãozinha porque vou cair.

Cês nem precisam me dizer como eu sou sortuda.

Esses eventos passaram, foi todo um suplício, mas a coisa se arranjou, apesar de que passei o aniversário do namorado + Natal + Ano Novo meio que socializando com as pessoas, meio que deitada no quarto implorando pelo doce hálito da morte e tomando remedinhos, porque sem condições de ficar sem remedinhos nessas horas.

Mas okay, vida que segue. Quando finalmente consegui me consultar com algum médico que, de fato, me atendesse - porque, até então, nada -, ele olhou bem pra mim e disse:

— Olha, não tem o que fazer. Quebrou, mas como é o final da coluna ou a gente opera - o que pode causar sérios danos se der algum erro - ou a gente torce pra dor passar.

RIDÍCULA! 
MINHA VIDA É RIDÍCULA! 
 

Na primeira semana de janeiro, comecei a sentir fortíssimas dores na região do baixo ventre. Aí fui ao médico a lá me deram antibióticos porque infecção urinária.

Na segunda semana, namorado ficou doente. E o que ele fez? Isso mesmo, me passou as bactérias. Aí, eu fiquei como? Fiquei com faringite, uma dor de garganta dozinfernos e uma febre que ia e vinha.

Foi bem inspirador, devo dizer. E acho que nem preciso mencionar que ainda estou tomando antibiótico até agora, né? Portanto, doente de novo. Ou ainda. Não decidimos pra não afrontar o universo. Não é como se ele precisasse de desculpas pra ser criativo a meu respeito.

E aí que, fora isso, faço 23 anos daqui a 2 dias e, acerca desse fato, só posso dizer que:



Sou uma versão feminina do Nick Miller e não sei cuidar direito de mim, que o fará dos outros e de todas as situações da vida adulta? Não me sinto adulta? Vou fazer 23 anos e não estou nem na metade da faculdade? Vamos parar de pensar nisso a g o r a?!

Enfim, eu só quis dizer. ¯\_(ツ)_/¯ 

Vamos falar sobre o menino Kafka

Carta ao pai 
Franz Kafka
Companhia das Letras
88 páginas
Ano de publicação: 1953 

Sobre o que é: menino Kafka era um moço atormentadinho por seus processos interiores de should I stay or should I go nos costumes de sua família judaica e na tradição de comerciantes que seu querido papai lhe forçava. Ele só queria ser ele mesmo, mas não sabia quem era e ficou com muita mágoa de miguxa do pai porque o cara lhe cobrava um rumo na vida. Aí decidiu escrever uma carta de mais de oitenta páginas pra explicar por que ele era um fracassado e como a culpa de tudo era do pai dele. 

Por que ele é bom? Pra entender a obra do Kafka. Vamos lembrar que Franz Kafka era um menino que escrevia, mas não levava a sério sua carreira como escritor porque probleminhas internos e não queria que publicassem suas coisas. O cara meio que fazia o que nós, possuidores de blogs-diarinho ou contas no twitter, fazemos hoje com menos pudores: escrever mimimi e fanfic de si mesmo pra desabafar e ser uma pessoa funcional no dia a dia, não arrancando cabeças - alheias ou próprias - com uma machadinha. Ou seja: Kafka era gente como a gente. ♥ 

Só que, nessas de escrever fanfic de si mesmo, ele acabou nomeando trocentos personagens como K. Apenas K. E os colocando em situações estapafúrdias, como sendo um inseto gigante cuja maior preocupação não é em como isso ocorreu ou em se livrar das patinhas, mas sim em ir trabalhar e ser querido pela família, e também em ser um carinha trabalhador que um dia acorda e encontra sua casa repleta de gente desconhecida dizendo que ele está sob um tipo de prisão, num processo, cuja origem ninguém sabe dizer. Quer dizer, MUITAS ANGÚSTIAS, claramente. E toda essa vibe prisioneiro de si mesmo kafkiniana é facilmente explicada após a leitura da carta que ele escreveu pra seu pai. 

Por que ele é ruim? MIMIMI. DRAMA. CHORO E RANGER DE DENTES. Meldels, que livro pesado. É tanto sentimento de culpa que dá um troço na pessoa. Menino Kafka se culpava muito por ser da forma que ele era, por ser franzino, por ser esquisito, por ser ligado nas literaturas da vida... Sempre se achou um fracasso, mas aí foi tentar explicar tudo isso pra seu querido pai respondendo à pergunta: 
Querido pai,
Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo, que eu não poderia reuni-los no ato de falar de modo mais ou menos coerente.
Meu amô, se tem algo que eu aprendi nesses vinte e poucos anos de vida é que há coisas que jamais devem ser perguntadas porque desencadeiam uma diarreia verbal de assuntos nada agradáveis e que vão te fazer sofrer e tirar seu sono durante a noite. Mas claramente Kafka, o pai, não sabia disso. E aí que seu magoado filho desatou a escrever e escrever e escrever uma carta extremamente INFP feelings que jamais foi enviada, mas que seu amigo Max resolveu deixar a público após a morte do nosso menino escritor. 

Não é ruim, mas é íntimo demais, real demais, doloroso demais. E nem sempre isso é bom. 

~como eu estava ao terminar o livro~
Se eu recomendo a leitura? Sim, mas não. Sim se você for fã do cara ou quiser conhecer e entender mais sua obra. Não se você estiver num período sensível da vida humana (como, por exemplo, TPM; porque a espertona aqui foi ler isso quando? isso mesmo, na TPM, e aí eram 4h da manhã e eu estava encarando o teto, com lagriminhas correndo pelo rosto e com um namorado preocupado ao lado porque MEU AMÔ, NÃO SEJA LOUCA, SIACALME). É um livro que precisa do timing certo pra ser lido ou de um coração de gelo (nem meu coração aquariano geladíssimo conservou sua geleira, cês vejam bem no que estão se metendo)

Em um quote: 
É que eu já estava esmagado pela simples materialidade do teu corpo. Recordo-me, por exemplo, de que muitas vezes nos despíamos juntos numa cabine. Eu magro, fraco, franzino, tu forte, grande, possante. Já na cabine eu me sentia miserável e na realidade não apenas diante de ti, mas diante do mundo inteiro, pois para mim tu eras a medida de todas as coisas. 
Tadinho do Kafka, gente. Cheio de tormentos & trauminhas.  

2016: o ano em que eu dei um jeito

No final de dezembro eu comecei a escrever uma retrospectiva 2016. Escrevi enlouquecidamente contando todos os percalços do caminho e parei porque, sinceramente, chega de drama. Aí abri uma nova aba e fui escrever uma outra retrospectiva, dessa vez mais objetiva e alegre. E parei porque não era real, porque 2016 foi intenso, sim, foi pesado de muitas maneiras e eu não iria mentir no meu próprio blog. 

9 dias se passaram desde que o grito de CABÔ 2016 foi dado, e cá estou eu mais uma vez tentando falar sobre o que raios foi esse ano. Sério mesmo: que ano foi esse? Eu queria muito deixar 2016 passar batido, sem lembrança alguma, mas não posso fazer isso porque esse foi um ano que me definiu de muitas formas como ser humano. Me mudou, me feriu, me fez tomar uma atitude - pra mal ou pra bem é o que saberemos nas cenas dos próximos capítulos. 

Mas o fato é que, apesar de todas as coisas ruins, ou talvez por causa delas, esse foi um ano em que eu dei um jeito. Se tudo dava errado pela manhã, lá estava eu numa correria, falando pelo celular ao mesmo tempo em que enviava um e-mail e derretia chocolate pra fazer trufas e vender e fazer com que a tarde ficasse certa. Foi um ano em que eu não tive alternativa a não ser ir em frente, por mais que eu quisesse ficar quietinha num canto escuro sem ver ninguém por eras. Isso simplesmente seria ridículo após todo o estresse pelo qual passei em 2015 e tudo o que consegui conquistar. Então o ano seria bom e se não fosse seria na marra. 

E foi bom, apesar do medo quase paralisante e dos frequentes ataques de ansiedade. Foi um ano de primeiras vezes, e é sobre elas que eu quero falar. 

1. O ano em que eu comecei a fazer Jornalismo 

Quero ser jornalista desde os 6 anos de idade. Mas a vida, as pessoas me dizendo que eu não sirvo pra isso, todo aquele discurso ridículo que colocam em cima das pessoas quando elas têm um sonho e tal fez com que eu colocasse ele de lado por muito tempo. Aí fui fazer Pedagogia: foram 2 anos aprendendo sobre a aprendizagem infantil, mexendo com marionetes, contando historinhas e limpando cocô de criança pra me dar conta de que essa não é a vida que eu quero. Então, tomei coragem e pedi transferência. 

Demorou meses pra que me desse a resposta, mas fiquei sabendo que havia conseguido a vaga em Jornalismo no primeiro dia de 2016. Literalmente, foi a primeira coisa que fiz no ano: acordei, peguei o celular e vi a mensagem: "MIA, TU CONSEGUIU ENTRAR EM JORNALISMO!". Comecei 2016 ajoelhada no chão de um quarto de uma pessoa que nem vale a pena mencionar, chorando e rindo descontroladamente de alegria. E recebendo, em seguida, um tapão na cara verborrágico: "Ah, pobrezinha. Tu vai ver que não serve pra isso. Mas deixa, no final do semestre, quando o Jornalismo tiver te destroçado, eu vou estar aqui pra tu chorar no meu ombro e voltar pra Pedagogia". Pois nem a criatura estava mais comigo nem eu estava chorando destroçada. Tô bem feliz em Jornal, sendo repórter no Editorial J e trabalhando em assessoria de imprensa na Polícia Federal. YAY \o/ 

2. O ano em que eu fui fotógrafa 

Antes de trabalhar como repórter, fui fotógrafa no J e, gente, que experiência incrível. Eu andava com uma câmera gigante + lentes pra lá e pra cá, saía todos os dias de van pra lugares diversos e sempre que aconteciam coisas eu lá estava. 

Só que as fotos, gente. AS FOTOS. Se tem uma coisa que eu aprendi em 2016 é que não sirvo pra fotógrafa, hahahaha 

Eu amo essa foto, mas também é a única das fotos tiradas nessa época que eu realmente amo. Inclusive, ela foi usada, posteriormente, numa matéria pra o Dia das Bruxas (aqui) ♥ 







Tava numa escola fotografando uma ocupação, os adolescentes, a cozinha, eles preparando comida e tal, quando um passarinho entrou sabe-se lá por onde, ficou voando pelo local e eu comecei a segui-lo e a tirar fotos freneticamente, até que ele foi pra uma das janelas e fez pose, hahahaha ♥ 

Eu sou ruim até quando eu sou boa, gente, assim não dá, hahahaha 

3. Fui à uma balada pela primeira vez 

E odiei. 

4. Pintei o cabelo de azul 

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Não pegou no cabelo inteiro, ficou cheio de cores, parecia uma arara e o azul virou loiro quase branco em duas semanas, mas foi muito tri.


5. O ano em que escrevi reportagens e crônicas

Sofia, minha miga e também repórter, foi minha grande parceira de textão em 2016. Escrevemos duas reportagens juntas, sendo que uma delas (escrita também em parceria com a Bibiana e a Annie) é o meu grande amorzinho do ano: A literatura não tem rosto de mulher ♥ LEIAM LEIAM

Também comecei a escrever crônicas pra o jornal Opa!, sendo que uma delas é a minha grande queridinha: Lolita, uma história de terror

6. Expus meus poemas numa exposição de arte 

Umas gurias artistas que conheço se reuniram pra fazer uma exposição com trocentos tipos de arte e eu acabei entrando na roda. Sei que quase não posto poemas aqui no blog ou nas redes sociais, mas se tem uma coisa que eu escrevo essa coisa são poemas. Foi muito amor ♥ Fiz um caminho poético pela exposição, cheio de poemas enfeitados e depois fui comer sushi com a Paula ♥ 

Uma foto publicada por Mia (@miasodre) em

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Sushi = ♥ Quando eu casar o buffet vai ser sushi, quero nem saber.

7. Comecei a fazer uma coluna literária na rádio da faculdade

Eu nunca tinha falado numa rádio ou tido aula de rádio, aí me falaram que "Mia, tu gosta tanto de livros, sempre que tu fala deles no blog minha lista de leituras aumenta... por que tu não faz uma coluna literária?". Aí eu aceitei. E fui. Esta foi a primeira, sobre O Morro dos Ventos Uivantes, da Emily Brontë: 



8. Fui modelo fotográfica pra uns fotógrafos bacanas ♥ 

Primeiro foi pra Débora, que tem um projeto bem legal chamado Girl Power. Ela foi minha colega de Biblio e a guria é mega, MEGA talentosa com a câmera. Ela tirou umas fotos tão lindinhas que tô usando-as loucamente nos perfis das redes sociais até agora, hahahaha 




Depois foi a Sara Santiago, que é minha colega de Jornalismo e também entrou pra fotografia comigo no J. Um dia, o J tava comemorando aniversário e daí toda a equipe seria fotografada e teria um perfil feito, toda uma vibe Humans do J. Aí dona Sara tirou umas fotinhos minhas que MUITO AMOR. Sara, te dedico! ♥ 


Chapeuzinho Vermelho vai à faculdade, óleo sobre tela. 

E, fechando o ano, teve o senhor Wellinton, que também é fotógrafo do J e um BAITA fotógrafo mesmo. Quando eu casar quero que ele seja o fotógrafo, inclusive. Não foi uma sessão formal, mas foi uma sessão bem descontraída com a Sofia em que fizemos várias poses malucas num dia de muita ventania porto-alegrense. 



9. Comecei a trabalhar na Polícia Federal 

Calma, eu não virei policial: sou estagiária de assessoria de imprensa da PF, o que é MUITO LEGAL. Fico numa sala com ar condicionado a 16°C fazendo clippagem e sendo feliz. ♥ 

10. Quebrei o cóccix 

No final de dezembro. Inclusive, passei metade da noite de Natal deitada na cama, sem conseguir me mexer porque A DOR, ELA É REAL. Tá doendo ainda, mas tá suportável agora, só que fiquei com ele torto e não há médico que resolva isso. 

¯\_(ツ)_/¯


11. Me curei emocionalmente 

Comecei 2016 quebrada de tantas maneiras que nem posso explicar. Mas consegui me recuperar - e não apenas recuperar como regenerar, tipo o Doctor quando muda de corpo na regeneração (cês realmente acharam que não teria referência alguma a Doctor Who, né?!). E passei a lidar de boas com a vida, o universo e tudo o mais e a ser mais compreensiva com as cagadas próprias & alheias. 

Terminei 2016 ao lado do namorado, assistindo à uma fogueira gigantesca e fazendo uma prece pra Deusa: que em 2017 eu tenha forças pra ser tudo o que quero que os outros sejam. 

Um vídeo publicado por Mia (@miasodre) em


PRONTO, CHEGA, CABÔ 2016! VIVA 2017, YAY